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Marcello Xavier
Da equipe do Correio
| Ricardo Borba |
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| Do lado
esquerdo de Valparaíso de Goiás, na Vila Guaíra, (no sentido Brasília-Belo
Horizonte): exemplo da desordem urbana, onde faltam energia, água,
asfalto, tudo |
O Distrito Federal e seu Entorno formam uma das maiores
aglomerações urbanas do país. A região tem
a mais elevada taxa de crescimento nacional 3,41%, de acordo
com estudo (1999) do Instituto de Planejamento e Economia Aplicada (Ipea).
Mas os municípios periféricos a Brasília é
que são os responsáveis pela explosão populacional
na década de 90. Segundo a última contagem do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2.561.123 habitantes
vivem na Ride, a Região Integrada de Desenvolvimento do DF e
Entorno, criada há três anos.
Uma das causas desse crescimento rápido
é a migração na maioria de nordestinos
incentivada pelas ocupações irregulares de terras. Como
conseqüência desse processo, o nascimento de bolsões
de pobreza, em que as comunidades vivem à margem dos serviços
públicos. Se nada for feito urgentemente, na opinião de
especialistas e até de prefeitos da região, será
cada vez mais difícil reverter a desordem urbana de alguns municípios
da Ride. Combater a grilagem de terras, fazer os planos diretores das
cidades e desenvolver a economia são as soluções
apontadas para o Entorno.
| Ricardo Borba |
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| Do lado
direito (de quem vai para Belo Horizonte): Valparaíso é um bom exemplo
|
A desordem urbana tem conseqüências
danosas, principalmente para o meio ambiente, além de afetar
diretamente a qualidade de vida das pessoas. Sem planejamento, as fixações
irregulares ameaçam os mananciais e as reservas ecológicas.
Para se ter uma idéia da gravidade do problema basta observar
o destino do lixo em muitos dos municípios do Entorno. Em boa
parte deles, a população acaba jogando os detritos em
terrenos baldios, em rios e córregos quando não
queimam ou enterram.
MUITO SÉRIO
Jeito tem, mas está
muito sério. Nunca assisti a um quadro como esse que ocorre hoje,
comenta a arquiteta Tânia Battella, integrante da Comissão
de Política Urbana do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).
Tânia defende uma ação integrada entre os governos
de Goiás e do Distrito Federal, sob a coordenação
da União, para sanar os problemas que afligem o Entorno, e pressionam
os serviços em Brasília. Não sei se
Brasília vai resistir, alerta.
Na opinião de Tânia Battella,
uma das formas de reverter a desordem urbana é conter as ocupações
irregulares do solo nessas cidades. Ela entende que é preciso
haver mais rigor com os grileiros de terra, que agem impunemente. A
omissão é um convite à grilagem. Segundo
a arquiteta, a sociedade é a grande prejudicada nesse processo,
pois paga a conta com a queda da qualidade de vida.
Tânia Battella tem razão de
se preocupar com a perda da qualidade de vida na região. Segundo
dados do Ministério da Integração Nacional, o Índice
de Desenvolvimento Humano (IDH), que combina três itens (longevidade,
nível educacional e acesso a recursos), varia de médio
a baixo (veja tabela) nos 21 municípios do Entorno do DF. As
cidades de Água Fria (0,498) e Mimoso (0,471) detêm os
menores IDHs, enquanto Formosa (0,723) e Luziânia (0,716) estão
na dianteira.
CIDADE DO CAOS
O melhor, ou pior, exemplo de desordem
urbana no Entorno vem de Águas Lindas de Goiás, município
goiano distante 39 km de Brasília, emancipado em 1997 de Santo
Antônio do Descoberto. Fruto da proliferação de
loteamentos irregulares, teve sua população catapultada
de 5 mil habitantes no início dessa década para a estratosférica
cifra de 160 mil. Apesar das tímidas investidas do governo local
para conter a grilagem, e da falta de infra-estrutura (pavimentação,
esgotamento sanitário, abastecimento de água), ainda há
muita gente de malas prontas para se mudar para lá. Gente atraída
pela especulação imobiliária. Num rápido
giro pela cidade é possível entender por que: faixas em
todas as esquinas oferecem lotes em promoção.
Esse bolsão de miséria
tende a se reproduzir. Isso é uma tragédia social,
lamenta José Galbinski, arquiteto e PhD em Planejamento Urbano
pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. Ele é outro
que defende o planejamento urbano, por meio de ações conjuntas
entre os governos locais, prefeituras de Goiás, GDF e governo
federal. Na visão do urbanista, os problemas das cidades do Entorno
não passam apenas pela questão do desenho urbanístico,
mas do planejamento socioeconômico. É preciso
desenvolver a economia das cidades e prover a população
de serviços básicos, constata.
O BOM E O MAU
Se, por um lado, Águas Lindas é
o mau exemplo, Cidade Ocidental, a 45 km de Brasília, é
apontada como modelo de ordem urbana entre as cidades da Ride. Criado
em 1993, a partir do desmembramento de Luziânia, o município
surgiu organizado em setores, como Brasília. Todavia, enquanto
o núcleo central se preserva, a periferia sofre hoje a investida
de grileiros. Nem tudo é maravilha, lamenta
o prefeito Mauro de Abadia.
Ele afirma que um de seus primeiros decretos
foi a criação de um plano diretor para a Cidade Ocidental,
em 1997, como forma de combater os loteamentos irregulares. Presidente
da Associação do Municípios Adjacentes a Brasília
(Amab), o prefeito defende uma política urbana unificada para
as cidades da Ride.
O prefeito acredita que os problemas do
Entorno só serão solucionados quando a Ride sair do papel
o que pode acontecer em breve. Estamos esperançosos
pois estamos vendo que os governos (do DF, de Goiás e federal)
estão dispostos a investir na região. No início
deste mês, a Secretaria de Estado de Assistência Social,
do Ministério da Previdência, decidiu investir mais de
R$ 2 milhões em 20 cidades do Entorno escolhido para o
lançamento do Programa Integrado de Ações Sociais
(do Plano Nacional de Segurança do governo federal). Dias antes,
em 24 de março, os governadores Marconi Perillo e Joaquim Roriz
assinaram um protocolo de intenções para a prestação
de serviços de abastecimento de água e esgoto sanitário
em Águas Lindas, a mais carente de todas.
Segundo o secretário de Programas
Regionais Integrados do Ministério da Integração
Nacional, Antônio José Cerqueira, a Ride só vai
começar a funcionar na prática depois da instalação
de seu Conselho Administrativo. Mas não sabe dizer quando. Um
dos motivos para a demora foi a transferência da Ride para o ministério,
com a extinção da Secretaria de Políticas Regionais,
à qual estava ligada.
* Esta é a nona reportagem de uma série
sobre as soluções possíveis para os problemas que
ameaçam Brasília nos próximos anos. As oito publicadas
nos domingos anteriores foram: 1) As vocações econômicas
do Distrito Federal; 2) As tendências da população
do DF para o futuro; 3) Como melhorar o sistema de transportes coletivos
de Brasília; 4) Como reduzir as desigualdades sociais; 5) Consórcios
municipais para os serviços públicos; 6) Como administrar
os recursos hídricos; 7) Em busca da autonomia administrativa;
8) Caminhos para a criação de empregos
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