FALTAM 4 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS
 

Sangue, suor e trovas

 
A rotina dolorosa dos candangos que trabalhavam mais de 15 horas por dia, a violência da polícia e a ventania devastadora do cerrado nos versos de Sebastião Varela
 
 
Luiz Marques 15-12-86
Tião Varela, o trovador da história da construção de Brasília

  A história da construção de Brasília tem sido contada ora por pioneiros ilustrados ora por teses acadêmicas. Mas há uma terceira via para se conhecer as origens desta cidade às vésperas de seus 40 anos: é a via ingênua de um candango que carregou tijolo para as obras da capital que brotava no cerrado. Os 541 versos do trovador Sebastião Varela, o Tião da UnB, foram editados em 1981 no livro O Candango da Fundação de Brasília (leia trechos nesta página), prefaciado pelo poeta Cassiano Nunes. Nele se sobressai o relato do quão dura foi a vida dos que pegaram no pesado para construir a capital: ‘‘Candangos só aguentavam/por causa do ordenado/trabalhavam como nunca/porém ganhavam dobrado/comia o pão que o diabo amassou/no meio deste serrado’’.

  Responsável pela edição do livro, Cassiano manteve a grafia original, como pode-se verificar no verso que acabou de ser lido. ‘‘A poesia de Tião é principalmente descritiva. Repudia o lirismo, o subjetivismo, a fantasia surrealista, o maravilhoso, tão importante às vezes no cordel’’. Em contrapartida, ‘‘firma-se no chão duro, seco, das tradições mais antigas: a poesia épica, pagã ou medieval’’.

  É pena que tenha sido publicada uma única edição, em 1981. Varela morreu em 1995, depois de trabalhar durante 33 anos como contínuo da Universidade de Brasília (UnB). Um dos seus oito filhos, o livreiro Hidelbrando Varela lamenta que o livro do pai não tenha sido reeditado e tratado com a devida solenidade. Mas o dono da livraria Hidelbrando sabe o quão difícil é sobreviver no mercado editorial desta cidade. Mas não desiste, até pelo exemplo que teve em casa: ‘‘Meu pai foi um vencedor de todas as adversidades’’.

  O trovador Sebastião Varela foi garimpeiro, seringueiro, ladrilheiro, servente de pedreiro, consertou elevadores, ajudou a montar as estruturas dos primeiros prédios da Esplanada dos Ministérios. Morava com mulher e filhos num barraco perto da Embaixada de Portugal até que o então prefeito Israel Pinheiro mandou retirar todas as invasões que estavam na Esplanada logo depois da inauguração da cidade. Tião conseguiu falar com Israel, porque não queria tirar os filhos de perto da escola (as crianças estudavam na Vila Planalto).

  Conseguiu do prefeito a promessa de que seu barraco só seria derrubado depois de findo o ano letivo. E a casinha da família Varela foi a única a ficar naquela região nobilíssima. Todos as demais foram para a Ceilândia, cidade recém-nascida. Um dia, o cônsul Thomás Mena Barreto — que todos dias passava de carro e motorista em frente ao barraco de Varela — parou e perguntou ao pai de família se ele não queria um emprego na universidade que estava sendo construída. E foi na UnB que o trovador teve a chance de conhecer ‘‘as pessoas das letras’’, como conta o filho Hidelbrando, e a dedicar-se ao que iria fazer pelo resto da vida, poemas. Como esses que contornam esta página. (Conceição Freitas)

O candango na fundação de Brasília

(Sebastião Varela)

Este sertão de Goiás já foi muito esquecido tudo aqui era tristeza só se avistava campestre um passageiro ou outro passava neste esquisito só se ouvia uma ave do hambu o saudoso apito

Quase ninguém acredita esta cidade não vai começou o falatório naquele vai mas não vai mas o negócio era sério começou o pau quebrar pois o decreto era mesmo do governo federal

Foi um gasto estuporado aqui era noite e dia no calor como no frio chovendo ou fazendo sol todo mundo produzia

O Presidente da República abriu uma concorrência para esta construção vieram muitos engenheiros de várias opiniões entre eles Lucio Costa o maior dos urbanistas desenhou um avião

Foi um desenho muito simples porém de admiração na planta desta cidade um corpo de avião frente, cauda e duas asas no desenho as divisões uma cidade moderna nova civilização

Começou a chegar gente vindo de todas as partes três quartos eram do Nordeste que vinham para trabalhar os carros vinham cheios que não cabiam mais nada e esta espécie de passageiros chamavam de pau de arara

Enquanto isso, leitor tudo era em demasia eram milhares de homens construindo a Cidade Livre hoje o Núcleo Bandeirante e cidade primitiva não tem quem diga mas é legítima mãe de Brasília

De repente levantou-se uma cidade completa embora tudo de tábua mas uma planta correta um projeto prevenindo mais tarde tudo concreto foi o maior rebuliço no meio deste deserto

O Presidente achou por bem liberar por este lado um começo sem imposto uma matança de gado sendo pra ganhar dinheiro o homem foi-se obrigado negocia nas montanhas quanto mais em um cerrado

Foi de onde começou o comércio de Brasília não se pagava imposto de qualquer mercadoria viesse de onde fosse não precisava de guia foi um negócio à vontade na construção de Brasília

Se não fosse desta forma ninguém se sujeitava este céu que se vê hoje era barro que voava uma poeira tão fina que o ar já fumaçava tudo aqui era vermelho só de pó que levantava

Tudo era violento sem parar sequer um dia a frota do basculante com o cascalho da pista tudo eixo encascalhado os grandes carros de piche esguichando toda estrada as máquinas fazendo o piso

Nem todo leitor conhece o projeto de Brasília pois vinha de remotos tempos ainda da Monarquia quando o Império mandava em nossa soberania

Juscelino não inventou porém foi quem construiu se ele não executa outro não se atreveria pois de sessenta pra cá só se vê é carestia

Tinha uns políticos contra JK nem se importava botaram até no jornal algumas vezes criticava mangando das decisões que o governo tomava enquanto isto candango aqui nunca se agüentava

São os versos verdadeiros da fundação de Brasília que nos fala da poeira também dos alagadiços da verdadeira intriga de candangos com policiais

Do chuverão sem parar até amanhecer o dia candangos no descoberto tiriricando de frio os fogos todos apagados ouvindo cantar de jia

Os barracões do governo tinham muita segurança porém os particulares eram mesmo uma matança parece que o temporal perseguia por vingança

Chegava uma ventania tão forte de assobiar uma chuva de poeira era para começar a água vinha depois e começava a chegar

Quando a poeira baixava chovia mesmo a granel relâmpago de caracol rasgava o bucho do céu ali por cinco segundos se ficava quase cego

Candangos só agüentavam por causa do ordenado trabalhavam como nunca porém ganhavam dobrado comia o pão que o diabo amassou no meio deste cerrado

E por isto que o candango se sujeitava à poeira dobrava e redobrava dentro do barro vermelho suportava o que já disse somente atrás do dinheiro Muitos eram econômico fazia seu dicomer cozinhava almoço e janta cuidava de uma vez voltava pra sua terra mas não era na pobreza

Outros não dava valor bebia igual um pato chegava no mulheril bebia cachorro e gato terminavam ébrios e a polícia levava dando sopapo

Polícia naquele tempo pagava para bater às vezes sem necessidade levava para a cadeia quanto mais o homem ébrio esse apanhava sem ver Hoje nem se fala mais do começo de Brasília do tamanho sacrifício dos gigantes pioneiros quando aqui nada existia

Até água de beber por aqui era difícil vinha de muito distante transportada em carro pipa depositada em tonéis desde que vêm com piche

Candangos passavam sede esperando o caminhão sem água para beber e sem fazer refeição perdia até o contato diminuindo a produção

As seis primeiras estruturas que se deu a começar foi o prédio Vinte e Oito hoje Congresso Nacional veio logo a Casa das Ordem e Palácio da Alvorada depois veio a estrutura foi da nossa Catedral a Rodoviária e o Teatro Nacional Brasília Palace Hotel para os turistas se hospedaram

E todo dia chegava gente de todos estados de toda federação aqui tudo misturado a raça já é mestiça aqui ficou mais braiados

Uma dia na Companhia Pacheco Fernandes Dantas bem na hora do almoço veja aí a ignorância por um prato de comida teve ali uma matança

Voltamos para o candango sem ter onde ficar fazendo prédios bonitos sem ter onde morar vejam que coisa sem jeito isto aí é de lascar

Chegou vinte e um de abril que dia maravilhoso aquele dia esperado parece que madrugou na Praça dos Três Poderes só via era doutor

Eram tantos convidados que a praça não cabia além de muito outros também veio da Hungria foi gente de toda parte nesta praça de Brasília

Com um minuto atrás a capital era o Rio com um minuto depois nova capital Brasília todos viram Juscelino tremendo de alegria

Nesta hora o presidente quase não suportou ali de cabeça baixa na mesma hora chorou e disse graças a Deus Brasília se inaugurou meu sonho de muito tempo agora se concretizou

 


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