Entregue aos cupins

Unesco critica falta de interesse do governo em cuidar do patrimônio cultural da humanidade

 

Newton Araújo Jr.
Da equipe do Correio

Memória preservada é madeira que cupim não rói. Brasília completa 40 anos e tem três tombamentos históricos e culturais consecutivos. Apesar disso, a cidade não consegue manter de pé os monumentos que testemunham sua construção. Por falta de preservação e manutenção, estão ruindo uma a uma todas as construções em madeira que marcaram o período pré-inaugural da cidade.

  O desinteresse do governo em preservar um dos patrimônios culturais da humanidade tem preocupado a Unesco — órgão das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, entidade que concedeu o tombamento de maior repercussão para a cidade. ‘‘Nenhuma campanha é feita para despertar a consciência da população para a importância de Brasília ser patrimônio da humanidade’’, diz Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil.

  Para Werthein, isso deveria ser ressaltado nas campanhas publicitárias do governo e, de forma massiva, nas escolas públicas e privadas. ‘‘Em nenhum lugar público está dito que aqui é patrimônio cultural e que isso seja ressaltado como elemento positivo’’, insiste o diplomata.

  Se a situação de fato se agravar em relação ao traçado original da cidade (como aos poucos vem sendo burlado), ou a monumentos isolados (como a interminável novela para a restauração da Catedral), a Unesco pode iniciar uma investigação a fundo sobre a situação. Por enquanto, não há nenhuma denúncia em relação a Brasília. A cidade pode entrar na lista de patrimônios ameaçados, o que representa um desgaste a mais na imagem do país no exterior.

  Para muita gente, inclusive autoridades, os monumentos em madeira tombados pelo patrimônio são apenas ‘‘barracos inúteis’’. A falta de ações concretas do Departamento de Patrimônio Histórico e Artístico (Depha, responsável pelo primeiro tombamento) e do Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan, responsável pelo segundo tombamento) são complicadores.

  A Igreja Nossa Senhora da Pompéia, na Vila Planalto, ardeu num incêndio intencional na madrugada da segunda-feira de carnaval. A primeira escola de Brasília, também na Vila Planalto, ruiu seis anos antes. Repetiu-se a história com as casas em madeira da Vila Planalto, do Núcleo Bandeirante e da Candangolândia, os primeiros grupamentos humanos antes que Brasília se tornasse Brasília.

  É o que pode acontecer com os monumentos isolados ou conjunto deles que conseguiram escapar da crônica falta de verbas (o que reflete o desinteresse) das autoridades locais e federais. O que ainda está de pé teve a sorte de contar com a luta e resistência da população interessada em preservá-lo. A pressão popular foi arma eficiente para fazer os governos cumprirem suas obrigações com o patrimônio comum.

  ‘‘Os monumentos precisam ser recuperados e enquadrados num roteiro histórico-turístico’’, defende o historiador Newton Ismael Rosa, da Fundação Educacional do Distrito Federal, responsável pela ação que impediu a demolição do Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO) em 1985. Ele propôs esse roteiro às secretarias de Turismo e Cultura.

  O administrador do Núcleo Bandeirante, Marco Tulio Santana Rios, não tegiversa: ‘‘o Depha deixa os monumentos apodrecerem e cair. E não atua nem deixa ninguém atuar neles’’. Não adianta só tombar. ‘‘Tem que preservar’’, faz coro o padre Adriano Scarparo, responsável pela comunicação social da Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Brasília.

  ‘‘O Depha tem projeto para restauração de todas as igrejas’’, argumenta o arquiteto Francisco de Almeida Filho, diretor da instituição. Lembra ainda que há previsão orçamentária de R$ 200 mil para a igrejinha da Vila Planalto e mais R$ 129 mil para as outras áreas. ‘‘Que não dá pra nada’’, reconhece. Nem tem a menor garantia de que o dinheiro saia.



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