| Acácio Pinheiro |
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| Ney
Carneiro começou fazendo transporte de passageiros, mas mudou
para o comércio de meias: primeiras-damas
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| Enildo e Hely, irmãos
da Dom Bosco, a pizza da cidade |
Quando os primeiros operários chegaram
a Brasília, no final dos anos 60, o comércio era reduzido
a poucas lojas instaladas na poeirenta Avenida Central, na Cidade Livre.
A cidade não produzia quase nada, a não ser a areia retirada
do rio Corumbá e utilizada na construção.
A escassez de produtos virou a sorte dos primeiros comerciantes que
chegaram por aqui. As mercadorias acabavam em poucos dias, o que os
obrigava a ir, muitas vezes de ônibus, reforçar o estoque
em São Paulo e Minas Gerais, os principais pontos de venda.
Quem pagou pelo sonho da capital não se arrepende. A maioria
tinha outra profissão antes de apostar no comércio. Montaram
seus negócios em barracos, na Cidade Livre, e depois se transferiram
para a W3 Sul, a primeira avenida comercial da capital.
Foi assim com o baiano Ney Carneiro, que montou a Casa das Meias;
com irmãos mineiros Hely, Enildo e Elci Veríssimo que
fizeram história com a pizzaria Dom Bosco; o árabe Mitre
Moufarrege, com o Guaraná Pioneira; e o empresário Hely
Valter Couto, dono da
Pioneiras das Borrachas.
Foi na paisagem poeirenta da Cidade Livre que o alfaiate Hely Valter
Couto desembarcou em dezembro de 1958. O mineiro de Carmo do Paranaíba
largou a profissão em Belo Horizonte para vir à nova capital.
Com o intenso movimento dos operários e a chegada diária
de novos moradores, resolveu ficar na cidade. Montou em um barraco na
Avenida Central, a Pioneira da Borracha, inaugurada em março
do ano seguinte. Naquela época, só vendia mangueiras,
correias, colchões e travesseiros. Sem recursos, dormia nos fundos
do comércio. O banho era tomado com a ajuda de uma lata de queresone,
com pequenos buracos em um dos lados para se assemelhar um pouco mais
a um chuveiro. Tudo acabava em poucos dias. A loja funcionava
até as 23h, lembra Hely.
A inauguração da cidade, dois anos depois, trouxe a
grande chance para o empresário iniciante. Sua primeira grande
venda: três mil travesseiros para a Novacap. Foi quando trouxe
a mulher, Elenise, e o primeiro filho, ainda bebê. Era da porta
do barraco onde ele via os lacerdinhas, como
eram chamados os redemoinhos de poeira, que davam trabalho aos moradores
do local. O nome era uma referência ao líder oposicionista
Carlos Lacerda.
PRIMEIRO REFRIGERANTE
Um ano antes de Hely, tinha chegado à cidade o árabe
Mitre Moufarrege, 65 anos. Foi convidado pelo próprio Juscelino
Kubitsckek, quando o presidente fez uma visita ao clube Monte Líbano
no Rio de Janeiro. Mitre era diretor da casa, na época.
O jovem árabe, com então 22 anos, aceitou o desafio.
Quando chegou em agosto de 1957 a sua primeira imagem foi o almoço
de quatro mil operários. Um detalhe o chamou atenção:
o refrigerante que era passado de boca em boca pelos homens. Produto
caro na nova cidade, longe de quase tudo, a bebida gaseificada era quase
um privilégio. A penúria dos operários se transformou
em salvação para o árabe, que inaugurou em janeiro
do ano seguinte o Guaraná Pioneira. A pequena fábrica
na Cidade Livre tinha produção suficiente para encher
vinte caminhões e gastar 57 sacos de açúcar mensalmente.
O produto era vendido nos canteiros de obras e quiosques. A um preço
bem acessível. Foi um verdadeiro sucesso,
lembra Mitre.
A nova bebida virou mania na capital. No início, o Guaraná
Pioneira era preferida ate entre as marcas nacionais. O sucesso do empreendimento
durou até 1964, quando a concorrência forçou o árabe
a abrir a primeira fábrica de Pepsi no DF.
Os primeiros comerciantes não sabem ao certo quantas lojas
existiam por aqui naquela época. Algumas dezenas. O mais antigo
levantamento do IBGE mostra que, em 1975, havia 4.233 empresas no DF.
Em 1996, este número era de 12.475. Mas, só na Junta Comercial
do DF existem cerca de 250 mil empresas cadastradas, entre firmas, cooperativas
e indústrias.
MEIAS PARA AUTORIDADES
Um comércio que teve como um dos pioneiros o baiano Ney Carneiro,
80 anos. Vendeu um agência da Real Aerovias, em Ilhéus
(BA) e rumou para o Planalto. Tinha vindo um ano antes para visitar
a nova capital. Encantei-me com a amplitude da Esplanada,
a paisagem que vi pela plataforma superior da Rodoviária. Achei
bonita a cidade e decidi começar a vida aqui.
A primeira tentativa foi fracassada. Passou alguns meses fazendo o
transporte de passageiros entre o Plano Piloto e Taguatinga, até
o motorista bater o carro, na via de ligação ao Aeroporto.
Foi quando resolveu alugar dois prédios na primeira quadra comercial,
a 107/8 Sul. Montou no térreo o bar Oásis, freqüentado
pelos funcionários públicos, e no primeiro
pavimento, o salão de beleza Gardênia, onde
vinham umas freguesas bacanas.
As poucas casas comerciais dividiam os fregueses com os comerciantes
ambulantes. Vendedores que traziam roupas, especialmente calças
jeans, para vender entre os operários. Na época,
estavam começando a escavação para o Cine Brasília,
lembra Ney. Em 1961, um vendedor de meias passou pelo bar Oásis
e ofereceu mercadoria. O rapaz foi para Taguatinga, mas deixou com Ney
a primeira remessa de meias e roupas íntimas. Com a mercadoria
nas mãos, ele fechou o bar para abrir Casa das Meias. Abri
o negócio com meias a pedido das freguesas. Também não
dava certo manter um bar e um salão de beleza, lembra
Ney, único dos primeiros comerciantes da Rua da Igrejinha que
ainda permanece vivo.
Em uma época onde mulher usar saia era quase uma
heresia para as damas da capital, Ney fez sucesso. Naquele
tempo, mulher não usava calça. E era um rasgar de meia
danado nas cadeiras, recorda-se. E quem queria
dar um presente, comprava uma meia. Não havia outra coisa para
dar, completa o baiano de corpo franzino e sempre de bom
humor. As meias de seu Ney desfilavam nos bailes do Hotel Nacional e
nas festas dos Estados, que começaram na 107 Norte.
Hoje, a casa orgulha-se de ter vestido quase todas as
primeiras-damas da capital. Só não
sei se a dona Ruth (Cardoso) compra aqui. Mas a Rosane Collor mandava
uma secretária fazer as compras, explica. A pequena
lojinha na 107 mudou para uma sede maior, em 1994, mas continua na mesma
quadra. A única mudança foi nas mercadorias.
A diferença é que não tinha peças
tão escandalosas como hoje, brinca Ney, referindo-se
às novas peças íntimas.
TRADIÇÃO NO PALADAR
Diferença de produtos é o que não se vê
na pizzaria Dom Bosco. Quarenta anos depois, a massa crocante com o
molho de tomate, na medida, e o pedido do cliente: Me dá
uma dupla, aí, permanecem. As fatias continuam servidas
em guardanapo de papel, no balcão apertado dos irmãos
mineiros: Enildo, Hely e Elci (o Baixinho). A tradição
da pizza Dom Bosco vem desde 1960, quando a casa abriu. Era o ponto
de encontro dos namorados e familiares. No domingo, era
uma loucura isso aqui, um Deus nos acuda, lembra Hely. Este
era o dia da missa na Igrejinha. E a Dom Bosco era a única lanchonete
da rua.
Os tradicionais clientes, que hoje trazem filhos e netos, convivem
com a nova freguesia. Vem aqui o pessoal da Nativus, Raimundos
e do Batom na Cueca, cita Hely. Naquela época, não
eram cobrados impostos,nem inscrições para abrir um negócio.
O contrato da pizzaria Dom Bosco, por exemplo, foi feito à mão.
Enildo era o único irmão com experiência em pizzas.
Era funcionário de uma casa de massas em Araxá, interior
de Minas Gerais. De lá, trouxe os outros irmãos, que vieram
para ajudar no negócio. O trio chegou aqui em 1968, quando a
pizzaria já estava aberta, mas com outro dono. Hoje, o ganha-pão
se confunde com a diversão dos proprietários, que se dividem
entre colocar pizza no forno, dar trocos e atender aos clientes. É
difícil entrar um freguês que seja estranho.
Que o diga o capitão reformado do Exército, Ivo Wilson
Santana, um freguês diário. É aqui que
tomo minha cerveja. Enildo confirma: E quando
ele não vem, a gente telefona para saber o porquê.
Vida de pioneiro - A musa Brasília
Andrea Catta Preta
Especial para o Correio
Aqui tudo é diferente:/ Ninguém
escolhe Brasília,/Brasília é que escolhe a gente.
Autor do verso, o poeta Newton Rossi encontrou em Brasília a
inspiração de seus versos, a cidade de seus sonhos e a
poesia de sua vida.
Era 31 de dezembro de 1959, Newton e seu amigo, o professor Roberto
Pires, deixaram Belo Horizonte para pegar a longa e esburacada estrada
que os levaria à cidade da esperança. Ambos no carro,
ansiosos por passar a virada da década na nova cidade, não
contavam com o imprevisto, tão comum naquela época, de
ficar atolado no meio do nada. Por um dia perdi a virada
do ano na capital. Não tinha estrada. Passamos um frio danado
e ficamos frustrados por não termos chegado em 59,
lembra Newton.
Mas o desconforto não conseguiu diminuir o amor que surgiria
para Newton ao avistar a cidade. O estudante de Letras na época,
e seu amigo Roberto, chegaram a Brasília ao raiar do dia 1º
e, ansiosos como nunca, depararam-se com luzes, tratores e um céu
que exalava raios de energia. Antes mesmo de encontrar um lugar para
ficar, ambos se dirigiram à Península Norte para consagrar
a chegada.A vista era tão ampla que, emocionados,
nos ajoelhamos e beijamos essa terra vermelha. Parecia que estávamos
entrando em outro mundo, outro planeta, relata Newton emocionado.
A cidade de horizontes sem limites estava cheia. Todo mundo queria
participar e fazer parte do evento que marcaria a história do
país. Fiquei três meses como hóspede
na casa de amigos. Não havia onde ficar, os hotéis estavam
lotados. Vindo para preparar a chegada dos parlamentares,
Newton encantou-se com a Brasília. Um lugar onde reinava o espírito
de solidariedade. A carona era institucionalizada e se alguém
não tinha onde ficar, dava-se um jeito.
E foi assim que o acadêmico da Academia de Letras encontrou em
Brasília a musa de suas poesias. A vista ampla, o horizonte sem-fim,
os amanheceres e entardeceres que banham a cidade todos os dias tornaram-se
sua grande inspiração. Inspiração, que o
levaria 40 anos mais tarde a escrever este verso para a entrevista do
Correio Braziliense: Brasília é um grande
pássaro/ que desceu das alturas/ para beber água no Paranoá/
Gostou tanto que adormeceu/ deitado sobre a terra virgem/ e nunca mais
voou.
Newton imitou a musa. Ficou em Brasília para desfrutar do céu,
da terra vermelha e da amplidão que o embalam até as suas
poesias.Fico louco para me desvencilhar de meus afazeres
e ver o crepúsculo mais lindo do mundo.
LEIA AMANHÃ Militar que chegou ao acampamento da Pacheco
Fernandes uma hora depois da tragédia conta o que viu
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