FALTAM 2 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS
 

Mito ou massacre?

 
Sargento da Aeronáutica chegou ao acampamento da Pacheco Fernandes uma hora depois do conflito e conta, pela primeira vez, tudo o que viu
 
Ana Dubeux
Da equipe do Correio
 
 
Alcimar Batista, soldado da Aeronáutica, guarda documentos da época: ‘‘A GP era matadora, despreparada’’

 O sábado de carnaval de 1959, no imenso canteiro de obras onde começava a ser construída a futura capital, foi agitado. Não tanto pelo som da marchinha Engole ele paletó que o defunto era maior, de Jota Aldi, sucesso nas rádios, mas pelo rebuliço provocado pela Guarda Policial da Novacap (GP), no alojamento da construtora Pacheco Fernandes. Na versão oficial, o saldo foi um morto e alguns feridos, mas, no imaginário da cidade, o episódio é tratado como uma chacina. ‘‘O pessoal ligado à esquerda diz que foi um massacre horroroso. O pessoal ligado à extrema direita diz que foi um massacre pra valer. Tem um meio de campo aí que serve mais de apetite ideológico do que pra história. Um dia pretendo estudar este período da história, mas até agora do já ouvi dos pioneiros ninguém me disse que viu um massacre’’, atesta o historiador Paulo Bertran, autor do minucioso História da Terra e do Homem do Planalto Central. O cineasta Vladimir de Carvalho contou o episódio no filme Conterrâneos Velhos de Guerra, de 1992, com depoimentos que apontavam para uma chacina. Até hoje a história intriga muita gente. Uma equipe do Arquivo Público do Distrito Federal, em 1991, colheu uma série de depoimentos de cozinheiros, operários, policiais que participaram da Pacheco, mas nenhum deles afirma com precisão o que houve. Como base nesse e em outros depoimentos o historiador e sociólogo Luiz Humberto de Faria Del‘Isola está produzindo um trabalho sobre o assunto. Mas, até agora, não tem nenhuma evidência nítida de que houve massacre. Quarenta e dois anos depois, o soldado da Aeronáutica Alcimar Batista, que chegou ao acampamento da Pacheco Fernandes uma hora depois do início do tiroteio conta pela primeira vez o que viu. Carioca, empresário, aos 65 anos orgulha-se de ser pioneiro e justifica a criação do mito da Pacheco: ‘‘Criaram isso para tentar achincalhar Brasília’’.

 

ECorreio Braziliense — O senhor participou do massacre no acampamento da Pacheco Fernandes?
Alcimar Batista — Massacre, não. Esse massacre aí foi de araque, nunca houve. Mas estive no acampamento da Pacheco Fernandes naquele dia. Aquela história de caminhões cheios de corpos de operários, de gente sendo enterrada em valas abertas nos canteiros de obras e de centena de mortos foi boato.
Correio — O que se conta é que nove operários foram mortos pela polícia e dezenas ficaram feridos. O que o senhor presenciou?
Alcimar — Eu era da Aeronáutica. Nós fazíamos o policiamento de Brasília. Na falta de uma polícia, fazíamos esse papel. Brasília não tinha polícia de verdade. Tinha uma guarda chamada GP (Guarda Policial da Novacap). Essa GP que depois virou GEB (Guarda Especial de Brasília). Ela virou GEB no dia que a Aeronáutica acabou com ela, nós prendemos todo mundo e levamos todo mundo preso na Base Aérea. E acabamos com a polícia.
Correio — Acabaram com a polícia por causa da truculência na Pacheco?
Alcimar — Esse foi o primeiro fato, mas outros também contribuíram. O que houve na Pacheco foi um tiroteio. A polícia foi chamada ao acampamento, os peões estavam revoltados porque serviram comida estragada para eles. Os operários começaram a bater panelas e virar os pratos de comida, virar a mesa. Era um acampamento muito grande, espaçoso. Devia ter ali umas 300 pessoas almoçando naquela hora. E eles começaram a bater, quebrar, virar tudo. Enfim, fizeram uma depredaçãozinha. A GP chegou e enfrentou os peões, que estavam armados com enxadas, facas, picaretas. A polícia não tinha muito armamento, não. A GP da Novacap era uma guarda fraquíssima.
Correio — Fraca em armamentos, mas muito violenta, não?
Alcimar — Eram homens despreparados e muito truculentos. A Novacap contratava qualquer um, bastava saber ler. Eles tinham poucos armamentos, agiam sempre para intimidar os candangos e evitar que eles fizessem muita besteira. A polícia chegou e começou a atirar. Atirar no refeitório que era de madeira. Deram tiros e balearam alguns, mas ninguém morreu na hora porque fomos chamados imediatamente. Não vi nenhum morto.
Correio — O senhor chegou no início do tiroteio?
Alcimar — Chegamos uma hora depois. Naquela época era muito difícil locomoção. Éramos 12 soldados. Vimos muitas pessoas feridas, mas nenhum morto. Não houve nenhum caminhão carregado de gente, não houve buraco aberto por trator para jogar corpos lá dentro. Talvez se não tivéssemos chegado a coisa tivesse ficado pior. Tomamos conta do acampamento. O pessoal foi tudo atendido rapidamente.
Correio — O senhor idéia do número de feridos?
Alcimar — Muitos. Muitos mesmo, mas não tenho idéia de número.
Correio — Tinha gente estendida por todo lado?
Alcimar — Tinha. Ajudamos no que foi preciso, mas nosso negócio era chegar e controlar a situação. A polícia do Exército chegou primeiro porque o acampamento era ali na Vila Planalto, mais perto deles. Já estavam dando assistência, tinham levado alguns feridos. A maioria foi para HJKO (Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira).
Correio — Os corpos podem ter sido retirados antes de sua chegada?
Alcimar — Falaram em um morto, mas eu não posso nem ratificar que houve essa morte porque não vimos nenhum morto. Ficamos lá mais seis horas para fazer a limpeza do terreno, tirar o pessoal....
Correio — Limpar o local para não deixar vestígios? Tinha sangue no local?
Alcimar — Para arrumar a bagunça. Tinha sangue espalhado, alguns feridos. Mas não era ferido grave, gente que levou tiro na perna. Não teve nenhum caso assim que a gente chegou e disse: ‘‘Ih, esse cara está desenganado’’
Correio — Houve abuso da polícia?
Alcimar — A polícia foi responsável porque ela não podia nunca ter chegado atirando do jeito que fez, podia ter atendido o pessoal sem aquela agressividade toda. Os candangos eram muito dóceis, não tinham esse tipo de coisa, o pessoal era bem mandado. Eles queriam era estar trabalhando e viver a vidinha deles, não existia essa preocupação da marginalidade.
Correio — O senhor descarta a possibilidade de ter havido massacre?
Alcimar — Isso é mito. Não houve assim ninguém que comentasse ‘‘Oh! morreram tantas pessoas’’. Você ouviu falar nesses 40 anos alguém de uma família que disse assim: ‘‘Ah, eu perdi meu filho em Brasília. Foi naquele negócio’’.
Correio — Mas há depoimentos operários confirmando o massacre.
Alcimar — Quarenta anos depois será que não teve um filho de alma que perdeu um filho nesse tiroteio, nessa quantidade imensa de pessoas que morreu? Um eu até acredito, mesmo sem ter visto, mas massacre é brincadeira.
Correio — Há quem diga que os soldados da Aeronáutica chegaram lá para limpar a área, para esconder os corpos?
Alcimar — Mentira. Isso é um absurdo, uma canalhice. Havia realmente a preocupação com o Rio, com a oposição que era contra a construção de Brasília. Qualquer coisa que acontecia aqui repercutia na Câmara e no Senado lá no Rio e Brasília era logo achincalhada. O medo todo era esse. O resto é mito.
Correio — O senhor faz idéia como surgiu esse mito?
Alcimar — Superdimensionaram a história para sujar a imagem de Brasília. Criaram uma lenda. A polícia era tão fraca aqui que não tinha nenhuma metralhadora.
Correio — Mas a polícia naquela época vivia metida em confusão, não?
Alcimar — Comandávamos um baixo meretrício, uma zona. Vivíamos lá dentro. Um dia, um cabo nosso foi todo arrebentado pela GP. Pegamos metralhadora, revólver e começamos a prender polícia no meio da rua a tapa, ia prendendo e botando dentro do ônibus. Foi uma revolta dos praças, dos soldados, tomamos essa atitude e prendemos realmente todo mundo, levamos todos presos. Isso teve uma repercussão negativa muito grande e por pouco não fomos expulsos.
Correio — Houve alguma recomendação superior?
Alcimar — Não. Ninguém admitiu aquela truculência. A GP era matadora, despreparada. Pacheco Fernandes é só um exemplo. Mas ouvíamos boato de que a polícia aqui estava acostumada a matar. É possível que muita coisa seja boato também, mas havia assim um clima ruim porque quando formamos a GEB alguns desses policiais continuaram e foi muito difícil trabalhar com eles. Muitos eram acusados de muitos crimes e alguns chegaram a confessar.
Correio — Vocês receberam alguma
recomendação para não falar sobre o episódio da Pacheco?
Alcimar — Não. Havia uma preocupação de não deixar que o presidente Juscelino Kubitschek tomasse conhecimento.
Correio — Qual o motivo de querer esconder?
Alcimar — Não foi escondido, guardamos só para nós. O pessoal da Aeronáutica sabia mas não comentava, o major Francisco de Assis Lopes, que foi quem nos mandou para lá, fazia questão que não se falasse sobre o assunto. O pessoal do Exército também comentava o episódio. E como os jornais e meios de comunicação aqui de Brasília eram muito principiantes, ninguém tomou conhecimento.
Correio — Eles podem ter escondido os
corpos sem que vocês vissem?
Alcimar — Não, não havia tempo pra isso, eles não teriam como se locomover. E mais: eles não tinham inteligência para isso. Éramos rapazes experientes e não íamos ser ludibriados por uns idiotas daqueles.
Correio — Abriram sindicância
para apurar a Pacheco Fernandes?
Alcimar — Foram abertos Inquéritos Policiais Militares (IPM) na Aeronáutica, no Exército e na Polícia da Novacap. Nenhum foi concluído.

 


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