Quando chegou a Brasília, em 1964, Kiokasu Uema ficou encantado com
a cidade. ‘‘Que luzes lindas’’, pensou, enquanto olhava pela janela
do ônibus vindo de São Paulo. ‘‘Parecia uma grande vitrine de Natal’’,
lembra. Mas, no caso dele, a primeira impressão não foi a que ficou.
Aliás, só durou até o sol nascer. ‘‘De dia, isso aqui era uma grande
terra vermelha. Só tinha poeira e construção’’, ri o simpático seu Antônio
— nome como Kiokasu ficou conhecido em Vargem Bonita, onde mora desde
1964.
A família dos Uema, unida a centenas de conterrâneos, lutou ao lado
do presidente Juscelino Kubitschek e de Israel Pinheiro, então diretor
da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), pela construção
de Brasília. Eles deixaram o Japão — onde apenas 15% da terra é adequada
à lavoura — para herdar alguns hectares de puro cerrado no coração do
Brasil.
Os mais velhos contam que os primeiros japoneses chegaram aqui em
1956. Depois de passarem um dia analisando o solo, para ver se era possível
fazer pomares e hortas, foram ao encontro de Israel Pinheiro, desanimados.
‘‘A terra aqui é muito ruim para plantar’’, reclamaram, sem esperança.
O diretor da Novacap não pensou dois segundos e retrucou: ‘‘Vocês acham
que se ela fosse boa precisaria de japonês?’’.
As mais de duas mil famílias de ascendência nipônica que vivem atualmente
no Distrito Federal — cerca de cinco mil pessoas — nem podem ser consideradas
uma colônia estrangeira, pois os filhos de japoneses (nisseis) e netos
(sanseis) se misturaram aos goianos, cariocas e mineiros que também
vieram para cá. Hoje é possível encontrar gente dessa comunidade de
olhos puxados em todos os cantos.
Os japoneses que conservaram a tradição do plantio vivem em núcleos
rurais como Vargem Bonita, Alexandre Gusmão e Incra (próximos a Brazlândia);
Sobradinho e em Vicente Pires (colônia perto de Águas Claras). Já os
que partiram para o ramo de comércio se concentram em Taguatinga, Núcleo
Bandeirante e Plano Piloto.
VIDA DE CANDANGO
Antônio Uema não foi o primeiro da família a vir de São Paulo para
cá. O pai, Luis Uema, saiu do Japão em 1934 para trabalhar nas fazendas
paulistas de plantio do algodão. Acompanhou a construção de Brasília
desde 1958, quando o presidente Kubitschek idealizou a criação do cinturão
verde em volta da nova cidade. Animado com a proposta do presidente,
o patriarca, que morreu em 1982, trouxe para o Planalto Central os filhos
que estavam em São Paulo e no Japão, além de outras nove famílias da
cidade de Okinawa, sua terra natal.
A viagem de navio dos imigrantes brasileiros levou 30 dias em alto-mar,
até que eles finalmente chegaram ao porto de Santos. ‘‘A história de
imigração dos japoneses é parecida com a dos italianos que vemos na
novela Terra Nostra, da Rede Globo’’, conta o filho Antônio. Mais alguns
dias de trem e pronto: a comunidade de Vargem Bonita estava praticamente
formada. Hoje, das 67 chácaras, pelo menos 45 estão nas mãos dos japoneses
e seus descendentes.
A vila, próxima ao Park Way, preserva a cultura de um povo que cresceu
junto com Brasília. ‘‘Todos os japoneses que imigraram naquela época
chegaram com uma mão na frente e outra atrás. Mas valeu a pena vir’’,
conta Antônio. Quando construíram as primeiras casas, o lugar era bem
desconfortável. ‘‘Não tínhamos energia, água e nem telefone. Éramos
tão isolados da cidade que quase não sentimos a mudança do governo do
Jango (o presidente João Goulart) para os militares (em 1964), mesmo
morando a 40 km de distância do Palácio da Alvorada’’, diz o pioneiro.
Ainda na época do regime militar, os imigrantes ganharam a infra-estrutura
básica. Mas, no começo, a situação era tão precária que os japoneses
adultos se locomoviam em carroças. Seus filhos iam de bicicleta até
o Núcleo Bandeirante, onde estava o ônibus que os levaria à escola no
Plano Piloto. ‘‘Graças a Deus que não é mais tão difícil assim’’, brinca
o caçula de Antônio, Rodrigo no caminho da faculdade.
Hoje, os chacareiros nisseis se preocupam ao ver os herdeiros escolhendo
profissões bem distantes da realidade da roça. Os três filhos de Antônio,
por exemplo, têm nível superior. Ricardo, de 22 anos, terminou a faculdade
de Ciências da Computação, mesmo curso do caçula, Rodrigo. A primogênita
de Antônio, Denise, estudou Contabilidade e, assim como Ricardo, é bancária.
‘‘Dos três, nenhum quer saber de enxada’’, lamenta o pai, que nem chegou
a terminar o segundo grau.
Mas os dois garotos ajudam Antônio na hora de vender seus produtos
no varejão do Ceasa, todos os sábados. ‘‘Tempo bom mesmo foi o da Sociedade
de Abastecimento de Brasília, a SAB. O caminhão vinha buscar as hortaliças
e frutas na nossa casa’’, conta Antônio, em tom de nostalgia.
Os campos de alface, couve, tomates e outras verduras e legumes em
Vargem Bonita são resultado de muito trabalho no Brasil, combinado com
a velha técnica japonesa. Segundo os pioneiros, a terra era ácida demais
e não existia calcário. ‘‘Em São Paulo plantávamos milho, algodão, hortelã
e outros cereais sem usar um punhado de adubo sequer. Mas tivemos de
estudar muito o solo deste cerradão até fazer nascer comida aqui’’,
explica Antônio.
FESTA E CAMPEONATO
Mas quem acha que Vargem Bonita é uma ilha japonesa em Brasília está
muito enganado. Geralmente eles se encontram com conterrâneos nas festas
das Associações Nipo-Brasileiras, na Igreja Budista (315/16 Sul) ou
no templo Seicho-no-iê (404 Sul).
Organizam campeonato de beisebol, gatebol — jogo de estratégia e
paciência mais praticado pelos idosos, também conhecido como croquete
—, keindô (esgrima) e futebol de salão. Mas os jogos têm uma regra a
mais que o normal: brasileiro sem ascendência japonesa não entra. A
norma não é tão drástica, pois em cada time pode haver um craque brasileiro.
E o controle é eficaz: afinal, é fácil saber, pelo sobrenome, quem é
nissei ou sansei.
A religião é mais uma forma de manter o contato. ‘‘Muitas famílias
conservaram a tradição religiosa dos antepassados, a maioria budistas,
mas também tem muita gente que segue o seicho-no-iê, como eu e os meus
parentes’’, diz Minoru Takahashi, presidente da Associação Cultural
Nipo-brasileira do Distrito Federal, organismo que promove a integração
da comunidade com gincanas, festas e campeonatos.
Os jovens nisseis e sanseis se encontram para um cineminha, uma pelada
ou uma boa partida de boliche no shopping. A comida do dia-a-dia é arroz
e feijão, com os complementos típicos da mesa brasileira. Mas as tradições
não foram esquecidas. ‘‘Tomamos sopa de cabrito e comemos sushi ou missoshiro
em dia de festa’’, comenta Yushi Uema, mulher de Antônio.
O filho mais velho do casal, Ricardo, viveu dois anos no Japão, trabalhando
em uma empresa de aparelhos eletrônicos. Juntou dinheiro e voltou para
casa. Ele é da geração de sanseis (netos de japoneses) que, nos últimos
15 anos, fizeram o caminho de volta para a terra dos antepassados em
busca de especialização ou de um trabalho melhor na ilha do Pacífico,
onde existem hoje cerca de 235 mil brasileiros.