FALTAM 31 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

O fruto da terra vermelha

Primeiros japoneses chegaram aqui em 1956 atrás de um pedaço de chão para plantar

 

Milena Galdino
Da equipe do Correio

Ricardo Borba
O pioneiro Kiokasu Uema com o filho Rodrigo: ‘‘ Tivemos que estudar muito o solo deste cerradão até fazer nascer comida aqui’’

Quando chegou a Brasília, em 1964, Kiokasu Uema ficou encantado com a cidade. ‘‘Que luzes lindas’’, pensou, enquanto olhava pela janela do ônibus vindo de São Paulo. ‘‘Parecia uma grande vitrine de Natal’’, lembra. Mas, no caso dele, a primeira impressão não foi a que ficou. Aliás, só durou até o sol nascer. ‘‘De dia, isso aqui era uma grande terra vermelha. Só tinha poeira e construção’’, ri o simpático seu Antônio — nome como Kiokasu ficou conhecido em Vargem Bonita, onde mora desde 1964.

  A família dos Uema, unida a centenas de conterrâneos, lutou ao lado do presidente Juscelino Kubitschek e de Israel Pinheiro, então diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), pela construção de Brasília. Eles deixaram o Japão — onde apenas 15% da terra é adequada à lavoura — para herdar alguns hectares de puro cerrado no coração do Brasil.

  Os mais velhos contam que os primeiros japoneses chegaram aqui em 1956. Depois de passarem um dia analisando o solo, para ver se era possível fazer pomares e hortas, foram ao encontro de Israel Pinheiro, desanimados. ‘‘A terra aqui é muito ruim para plantar’’, reclamaram, sem esperança. O diretor da Novacap não pensou dois segundos e retrucou: ‘‘Vocês acham que se ela fosse boa precisaria de japonês?’’.

  As mais de duas mil famílias de ascendência nipônica que vivem atualmente no Distrito Federal — cerca de cinco mil pessoas — nem podem ser consideradas uma colônia estrangeira, pois os filhos de japoneses (nisseis) e netos (sanseis) se misturaram aos goianos, cariocas e mineiros que também vieram para cá. Hoje é possível encontrar gente dessa comunidade de olhos puxados em todos os cantos.

  Os japoneses que conservaram a tradição do plantio vivem em núcleos rurais como Vargem Bonita, Alexandre Gusmão e Incra (próximos a Brazlândia); Sobradinho e em Vicente Pires (colônia perto de Águas Claras). Já os que partiram para o ramo de comércio se concentram em Taguatinga, Núcleo Bandeirante e Plano Piloto.

  VIDA DE CANDANGO

 Antônio Uema não foi o primeiro da família a vir de São Paulo para cá. O pai, Luis Uema, saiu do Japão em 1934 para trabalhar nas fazendas paulistas de plantio do algodão. Acompanhou a construção de Brasília desde 1958, quando o presidente Kubitschek idealizou a criação do cinturão verde em volta da nova cidade. Animado com a proposta do presidente, o patriarca, que morreu em 1982, trouxe para o Planalto Central os filhos que estavam em São Paulo e no Japão, além de outras nove famílias da cidade de Okinawa, sua terra natal.

  A viagem de navio dos imigrantes brasileiros levou 30 dias em alto-mar, até que eles finalmente chegaram ao porto de Santos. ‘‘A história de imigração dos japoneses é parecida com a dos italianos que vemos na novela Terra Nostra, da Rede Globo’’, conta o filho Antônio. Mais alguns dias de trem e pronto: a comunidade de Vargem Bonita estava praticamente formada. Hoje, das 67 chácaras, pelo menos 45 estão nas mãos dos japoneses e seus descendentes.

  A vila, próxima ao Park Way, preserva a cultura de um povo que cresceu junto com Brasília. ‘‘Todos os japoneses que imigraram naquela época chegaram com uma mão na frente e outra atrás. Mas valeu a pena vir’’, conta Antônio. Quando construíram as primeiras casas, o lugar era bem desconfortável. ‘‘Não tínhamos energia, água e nem telefone. Éramos tão isolados da cidade que quase não sentimos a mudança do governo do Jango (o presidente João Goulart) para os militares (em 1964), mesmo morando a 40 km de distância do Palácio da Alvorada’’, diz o pioneiro.

  Ainda na época do regime militar, os imigrantes ganharam a infra-estrutura básica. Mas, no começo, a situação era tão precária que os japoneses adultos se locomoviam em carroças. Seus filhos iam de bicicleta até o Núcleo Bandeirante, onde estava o ônibus que os levaria à escola no Plano Piloto. ‘‘Graças a Deus que não é mais tão difícil assim’’, brinca o caçula de Antônio, Rodrigo no caminho da faculdade.

  Hoje, os chacareiros nisseis se preocupam ao ver os herdeiros escolhendo profissões bem distantes da realidade da roça. Os três filhos de Antônio, por exemplo, têm nível superior. Ricardo, de 22 anos, terminou a faculdade de Ciências da Computação, mesmo curso do caçula, Rodrigo. A primogênita de Antônio, Denise, estudou Contabilidade e, assim como Ricardo, é bancária. ‘‘Dos três, nenhum quer saber de enxada’’, lamenta o pai, que nem chegou a terminar o segundo grau.

  Mas os dois garotos ajudam Antônio na hora de vender seus produtos no varejão do Ceasa, todos os sábados. ‘‘Tempo bom mesmo foi o da Sociedade de Abastecimento de Brasília, a SAB. O caminhão vinha buscar as hortaliças e frutas na nossa casa’’, conta Antônio, em tom de nostalgia.

  Os campos de alface, couve, tomates e outras verduras e legumes em Vargem Bonita são resultado de muito trabalho no Brasil, combinado com a velha técnica japonesa. Segundo os pioneiros, a terra era ácida demais e não existia calcário. ‘‘Em São Paulo plantávamos milho, algodão, hortelã e outros cereais sem usar um punhado de adubo sequer. Mas tivemos de estudar muito o solo deste cerradão até fazer nascer comida aqui’’, explica Antônio.

FESTA E CAMPEONATO

  Mas quem acha que Vargem Bonita é uma ilha japonesa em Brasília está muito enganado. Geralmente eles se encontram com conterrâneos nas festas das Associações Nipo-Brasileiras, na Igreja Budista (315/16 Sul) ou no templo Seicho-no-iê (404 Sul).

  Organizam campeonato de beisebol, gatebol — jogo de estratégia e paciência mais praticado pelos idosos, também conhecido como croquete —, keindô (esgrima) e futebol de salão. Mas os jogos têm uma regra a mais que o normal: brasileiro sem ascendência japonesa não entra. A norma não é tão drástica, pois em cada time pode haver um craque brasileiro. E o controle é eficaz: afinal, é fácil saber, pelo sobrenome, quem é nissei ou sansei.

  A religião é mais uma forma de manter o contato. ‘‘Muitas famílias conservaram a tradição religiosa dos antepassados, a maioria budistas, mas também tem muita gente que segue o seicho-no-iê, como eu e os meus parentes’’, diz Minoru Takahashi, presidente da Associação Cultural Nipo-brasileira do Distrito Federal, organismo que promove a integração da comunidade com gincanas, festas e campeonatos.

  Os jovens nisseis e sanseis se encontram para um cineminha, uma pelada ou uma boa partida de boliche no shopping. A comida do dia-a-dia é arroz e feijão, com os complementos típicos da mesa brasileira. Mas as tradições não foram esquecidas. ‘‘Tomamos sopa de cabrito e comemos sushi ou missoshiro em dia de festa’’, comenta Yushi Uema, mulher de Antônio.

  O filho mais velho do casal, Ricardo, viveu dois anos no Japão, trabalhando em uma empresa de aparelhos eletrônicos. Juntou dinheiro e voltou para casa. Ele é da geração de sanseis (netos de japoneses) que, nos últimos 15 anos, fizeram o caminho de volta para a terra dos antepassados em busca de especialização ou de um trabalho melhor na ilha do Pacífico, onde existem hoje cerca de 235 mil brasileiros.

 

Vida de pioneiro
No tempo dos jacarés

Andrea Catta Preta
Especial para o Correio

Jorge Cardoso
Kleber Faria: caça no lago

O engenheiro Kleber Faria Pinto, de 66 anos, adora contar as histórias de sua chegada à cidade em 1959, em especial a caçada aos jacarés do Lago Paranoá e a passagem de Tom Jobim e Vinicius de Moraes por Brasília.

Duas pastas enormes cheias de documentos, reportagens e lembranças da época registram os seus encontros com Tom, Vinicius e Elizeth Cardoso, em Brasília. Cuidadoso com as dedicatórias que os músicos lhe fizeram durante a inauguração da nova cidade, é com gosto e carinho que traz à tona o episódio em que Tom Jobim e Vinicius de Moraes fizeram a letra da música Água de Beber.

‘‘Eles foram chamados por Juscelino para fazer a música do espetáculo da inauguração de Brasília (a Sinfonia da Alvorada)’’. Na ocasião, a tarefa era fazer uma ópera para o espetáculo que devia ser parecido com as da Grécia e do Egito antigos. Para isso, os músicos ficaram no Catetinho onde, em uma noite enquanto passeavam, ouviram o barulho de água e perguntaram ao porteiro que barulho era aquele. ‘‘ O porteiro disse que era uma bica d’água e Tom disse: isso é água de beber. Foi então, que Tom Jobim e Vinicius de Moraes começaram a cantar ‘‘Água de beber, água de beber’’, cantarola Kleber, empolgado.

No dia da festa, a má notícia: ‘‘Estava tudo pronto, quando soubemos que os franceses contratados não conseguiriam entregar as luzes e holofotes para a inauguração’’, conta Kleber. A iluminação de cada um dos prédios já construídos na Esplanada dos Minitérios não pôde ser utilizada. Mas o espetáculo foi apresentado mesmo assim.

Das aventuras que viveu em Brasília, a que mais gosta de contar é a caça aos jacarés que apareciam quando foi fechada a barragem para que o Lago Paranoá fosse formado. ‘‘Era um divertimento e tanto’’.

O engenheiro Kleber foi também um dos 60 professores selecionados, em 1960, para dar aulas na Caseb (sigla de Comissão de Administração do Sistema Educacional de Brasília, que passou a designar o nome da escola). ‘‘Todo mundo conhece a Caseb, mas ninguém sabe o porquê do nome.’’

O atual representante da Companhia Vale do Rio Doce em Brasília e cônsul da República do Senegal tem saudades: ‘‘Brasília era muito melhor antes. Havia muita solidariedade. Hoje, é cada um por si’’.


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