Flamboyants, sibipirunas e ficus benjamina vieram de longe para tomar
o espaço de paineiras, angicos e pombeiros, árvores nativas do cerrado.
Tortas, de casca grossa e chão ruim, as espécies do Planalto Central
ficaram de fora dos primeiros planos de arborização da capital conduzidos
pela Novacap há 40 anos. Foram extirpardas da paisagem que lhes é própria
para dar lugar a plantas consideradas exóticas.
Regras de paisagismo na época despreparadas para explorar o potencial
ornamental do cerrado isolaram o segundo maior bioma do país. Em variedade
de espécies e diversidade, a flora da região central do Brasil só perde
mesmo para a Amazônica. Mas foram precisos mais de 30 anos para que
a savana brasiliense conquistasse sua população nativa. E quase não
aconteceu.
A vegetação rasteira, quase monocromática, variando apenas em tons
de amarelo e pouco verde, sempre dominou o Planalto. O aspecto agreste,
com árvores desengonçadas e raquíticas que se perdem no horizonte e
deixam a desejar uma boa sombra, logo rotulou o cerrado de pouco interessante.
O carisma da exuberância tropical da mata atlântica e da floresta amazônica
passavam na frente, e as arvorezinhas de pau torto eram vistas como
pobres e fracas espécies que insistem em existir.
Doce engano. Parte da exuberância do cerrado se esconde debaixo da
terra, nas raízes das mais de 2.264 espécies já catalogadas pela Secretaria
de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia (Sematec). As raízes das chamadas
lenhosas — árvores e arbustos — chegam a atingir até 30 metros de profundidade
em busca de água. Quando encontram, se agarram ao lençol freático e
ali se abastecem por anos. Podem não crescer muito, mas, ao florescer,
oferecem um dos mais belos espetáculos de cores.
A canela-de-ema, arbusto de galhos pontudos e ariscos encontrado
apenas no campo, só segura a flor aberta por um dia. Ou dois no máximo.
Com seis pétalas contadas, azuladas ou liláses, a flor morre quase tão
rápido quanto nasce. O ipê amarelo impõe seus cachos floridos nos meses
que antecedem a primavera e o pombeiro, além de fruta que passarinho
gosta, produz também pequeninos buquês de flores brancas. Essas duas,
ambas árvores de médio porte, precisaram de 40 anos para reencontrar
a terra do Plano Piloto. O ipê e o pombeiro, junto com a cagaita e o
pequi, vão lentamente integrando trechos do canteiro central do Eixão
e fachadas de prédios e casas brasilienses.
A vegetação de pequeno e médio porte são as mais comuns, mas não
as únicas. O cerrado também apresenta vegetações campestres e florestais.
À beira de córregos, por exemplo, uma vegetação chamada ciliada pode
surpreender com árvores de até 30 metros de altura, samambaias e muito
verde. As palmeiras, embora não pareça, também são parte integrante
do cerrado.
‘‘No início de Brasília, pouco se conhecia do cerrado e das espécies
nativas, acreditava-se que a vegetação local não servia para nada e
devia ser destruída’’, conta a geógrafa Anajúlia Salles, diretora do
Jardim Botânico de Brasília. Na década de 60, quando veio morar na recém-nascida
capital acompanhando o pai, Ezechias Paulo Heringer, um dos pioneiros
no estudo do cerrado, Anajúlia assistia a propagandas veiculadas nos
cinemas brasilienses anunciando o solo do Planalto Central como pólo
de produção agrícola. E na mesma propaganda, a completa destruição da
vegetação rasteira ‘‘que não prestava para nada’’ ganhava caráter de
urgência.
Como as espécies locais eram praticamente desconhecidas dos agrônomos
e biólogos, o jeito foi mesmo plantar as tais espécies exóticas. As
primeiras, eucaliptos e pinhos, ocupavam as beiras das rodovias e hoje
quase não fazem mais parte da paisagem do Plano Piloto. Depois, flamboyants
e sibipirunas passaram a compor os planos de paisagismo das entrequadras
e do Eixão. Muitos erros que foram aos poucos sendo corrigidos. Até
porque o clima local ditava as normas.
RETIRADAS DO PARQUE
A sibipiruna, espécie nativa da mata atlântica, não gostou do solo
sem água do planaltão e aos poucos foi desaparecendo assim como as 50
mil árvores ditas exóticas mortas entre 1972 e 1975. Aos poucos deixaram
o lugar para cagaitas, sucupiras e pequis. ‘‘Essas são sobreviventes
do holocausto’’, brinca o viveirista Nicholaus Von Behr. Em Brasília
há 26 anos, Nicholaus descobriu a flora do cerrado catando semente no
Eixão. Ex-publicitário, nascido em Cuiabá, mas brasiliense por convicção,
ele acompanhou os sobressaltos da arborização da capital. ‘‘O problema
maior foi a pressa em inaugurar a cidade e a pouca valorização do cerrado’’,
lembra. ‘‘E planta, não adianta forçar se ela não se adapta’’, diz.
Nicholaus aponta outro erro da Novacap: a terraplanagem que derrubou
as espécies nativas para replantar mudas trazidas de fora. As árvores
do cerrado têm crescimento lento e seriam precisos anos para reflorestar
as áreas devastadas com espécies nativas. Brasília esperava pela inauguração
e não havia tempo. ‘‘No Parque da Cidade cometeram um erro tremendo:
80% da vegetação nativa foi arrancada’’, lamenta Nicholaus. ‘‘Eles esvaziaram
os viveiros de São Paulo para replantar em Brasília, mas é óbvio que
a espécie nativa teria manutenção mais fácil, porque já estava adaptada’’,
completa Manoel Cláudio da Silva Júnior, professor do departamento de
Engenharia Florestal na Universidade de Brasília (UnB).
Enquanto a capital do cerrado ganhava flora nova, estudos iam sendo
desenvolvidos na então Estação Florestal Cabeça de Veado, hoje Jardim
Botânico. As pesquisas deveriam identificar as espécies nativas e a
possibilidade de transplantar mudas.
‘‘Não tinha tecnologia de reprodução e até hoje a dificuldade para
reproduzir é grande’’, explica Anajúlia. ‘‘Mas no fim dos anos 60 existia
uma preocupação muito grande em mostrar a importância do cerrado para
os candangos, que não tinham empatia nenhuma com a região’’, completa
a geógrafa.
Nessa época, o departamento de Engenharia Florestal da Universidade
de Brasília começava as primeiras pesquisas de estudo da flora do Planalto
Central. Até hoje, não se sabe ao certo o número exato de espécies dispersas
pela região, mas dados apontam que esse tipo de vegetação ocupa 23%
do território brasileiro.
‘‘Não sabemos quantas espécies existem, mas é certo que há uma média
de 350 a 400 por hectare, o que é uma diversidade violentíssima’’, garante
o biólogo Francisco das Chagas, doutor em Ecologia pela Universidade
de Brasília e responsável pelo viveiro do Jardim Botânico. Ele lamenta
a escassez de espécies do cerrado na arborização de Brasília, mas comemora
que algumas árvores tenham sido tombadas como patrimônio pela Lei 14.783,
de 1993, que protege entre outros a copaíba, o pequi e o ipê. Na Vila
Planalto, há um pau- terra e uma sucupira que não podem ser derrubados.
Na 309 Sul, uma copaíba ou pau d’óleo, também está tombada e em frente
ao Palácio da Justiça, uma solitária paineira ganhou o direito de permanecer
sem temores na terra na qual nasceu. ‘‘Na natureza, tudo é mais lento,
uma árvore de 150 anos é jovem’’, diz Francisco, criticando a forma
como a Novacap conduziu a arborização de Brasília.
SÓ SOBROU UM
O carroceiro Omesíforo Alves Rabelo, seu Zico, já não pode comemorar
o tombamento como Francisco. Morador de Taguatinga Sul há 40 anos, ele
lembra que quando chegou à cidade podia acompanhar a época da floração
no cerrado sem pensar na possibilidade de um dia estar cercado de construções.
‘‘Tinha muito pé de buriti, sucupira, jacarandá, pau-terra e murici.
Agora, se você quer ver o cerradão, tem que ir para o lado do Parque
Nacional’’, lamenta. A vegetação desapareceu, o concreto cresceu e seu
Zico foi obrigado a se contentar com um único pé de buriti. ‘‘Aqui,
perto da minha casa, só sobrou ele. Daqui a 10 anos, se continuar assim,
não vai ter mais nada’’, constata. Seu Zico tem razão. De acordo com
os levantamentos da UnB, os únicos restos de cerrado contínuo se concentram
nas reservas de águas emendadas, fazenda da UnB, reserva do IBGE e Jardim
Botânico, além do Parque Nacional. Mas em dez anos, talvez seu Zico
possa voltar a comemorar.
Passadas quatro décadas da construção de Brasília, o Departamento
de Parques e Jardins da Novacap, que não quis se pronunciar, está fazendo
o caminho inverso: as espécies excêntricas viraram comuns e exótico
agora é conseguir transplantar um pequi ou uma cagaita. Segundo Nicholaus
Von Behr, Brasília fez as pazes com suas árvores e hoje 20% das espécies
que ornamentam a cidade são nativas. Em 1996, das 150 mil mudas plantadas
pela Novacap, 85% eram nativas do cerrado.
Essas mesmas espécies também recebem cuidados e atenção especial.
Os tombamentos são um exemplo, mas a identificação e divulgação ainda
constituem o trabalho maior. Todo semestre, um grupo de 40 alunos da
Engenharia Florestal da UnB escolhe uma quadra do Plano Piloto para
fazer levantamento das espécies nativas. Além de catalogá-las, os alunos
marcam cada planta com uma placa de identificação. ‘‘É uma maneira de
fazer um programa de divulgação das espécies do cerrado’’, acredita
o professor Manoel Cláudio.
Leia amanhã - A história da cidade na memória e nas fotos de quem
nasceu aqui na década de 60