FALTAM 29 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Na idade da terra

Quatro personagens relembram a infância e a adolescência na Brasília em construção,orgulham-se do lugar onde moram e, apesar dos problemas, acreditam que aqui há futuro

 

Cibelle Colmanetti
Da equipe do Correio

Paulo de Araújo
Marcus Vinícius, com a mulher, Dorothy, e a filha Camila: lembranças de Renato Russo, do velório de Tancredo e expectativa de dar qualidade de vida e garantia de futuro a seus descendentes


Passeio de Marcus Vinícius (de camisa listrada) na década de 70


O brasiliense Tharsis: tudo bem, mas faltam salas de teatro


Irandiaia lamenta a violência, mas não abre mão de ter um filho


Em frente ao colégio Rosário, Tharsis e a irmã, Flávia

A cidade era pequena. Incompleta, com ruas ainda por asfaltar e nuvens de poeira invadindo casas e apartamentos. Brasília cresceria aos poucos. Com ela, a primeira geração de brasilienses legítimos, pequenos personagens do centro urbano em construção. Nascidas na década de 60, essas crianças viveram as transformações da capital do país paralelamente às suas próprias mudanças.

  Elas hoje perto dos 40 anos de idade. Passaram pelo golpe militar, pelos anos da ditadura, pela copa de 70, pelo estado de sítio no dia da votação das Diretas Já, pelo rock Brasília, pelo impeachment de Collor.

  Também curtiram os passeios na Esplanada, com direito a alimentar os cisnes no lago do Congresso, as brincadeiras ‘‘embaixo do bloco’’ até tarde da noite, a lama em frente aos prédios, as discotecas do Gilberto Salomão.

  Quatro histórias de brasilienses comuns, gente que cresceu, estudou e vive na cidade. Histórias que passam longe de relatos oficiais, gabinetes de políticos. São cotidianas.

  É dia 17 de outubro de 1960. No quarto andar do Hospital Distrital (atual Hospital de Base), dona Nelzira dá à luz a primeira filha, Irandiaia Glaicy Fátima Bruno. A menina de olhos verdes, filha de pais goianos que chegaram à capital em 1957, será, inclusive, carregada por Juscelino Kubitschek, poucos meses depois do nascimento. A mãe conta o episódio até hoje, cheia de orgulho.

  Foi na Candangolândia, no acampamento dos funcionários da Novacap, onde o pai, seu Donato, era chefe de abastecimento, que a garota passou a infância. Amigos não faltavam, tamanha a quantidade de recém-casados e famílias instaladas no local. A criançada brincava na rua de terra, nos quintais. Não havia grades nem muros nem portões trancados. ‘‘Tinha, no máximo, uma cerca de arame para impedir que as galinhas fugissem’’, lembra Iran, como é chamada.

  Pois a rua, o apartamento cheio de meninos também são as primeiras lembranças de outros tantos brasilienses, como Tharsis Monteiro de Castro Campos, nascido no dia 15 de março de 1964. Na 103 Sul, onde ainda vive com a mãe, o então garoto contava mais de 30 amigos. Entre as brincadeiras mais divertidas, a molecada armava expedições aos prédios em construção — como o Cine Centro São Francisco e os próprios edifícios da quadra. A aventura era conseguir passar sem que fossem pegos pelos vigias.

  Jogar futebol na grama recém-plantada pela Novacap era outro desafio. ‘‘Sempre tinha alguém que avisava quando o graminha (fiscais da empresa que cuidavam dos gramados) estava chegando para a gente correr dali’’, lembra-se Tharsis, filho de mãe mineira e pai goiano. Antes de se mudar para o apartamento, a família havia morado em um acampamento para engenheiros próximo à Vila Planalto. Foi onde o menino, o segundo de três filhos, completou o primeiro ano de vida.

Redemoinhos de poeira

  Muita terra e um calor imenso, vento e redemoinhos de pó. As recordações de infância se assemelham nas quadras sem asfalto do Plano Piloto. Marcus Vinícius Bastos Lopes, que nasceu no dia 21 de setembro de 1963 também no Hospital Distrital, se divertia com os amigos da 304 Sul na lama formada pelas chuvas. Enquanto isso, Ana Maria de Morais e Souza preferia jogar bolinha de gude, empinar pipa em frente ao prédio na 409 Sul, onde vivia a família de 11 irmãos — contando as caçulas Ana Maria e sua irmã gêmea Ana Paula, nascidas em 9 de julho de 1964.

  Aos domingos, programas sagrados de todas as crianças: zoológico, Esplanada, aeroporto, passeio no Lago. O Parque da Cidade sequer existia. Para Irandiaia, cujo pai não tinha carro, não podia faltar a Rodoviária, para comer pastel. Com caldo-de-cana, claro.

  A meninada ainda curtiu a copa de 70, se espremendo na Esplanada para cumprimentar os jogadores. Demorou muito tempo para que os aplausos pudessem se repetir. Mais de 20 anos depois, Marcus Vinícius fez questão de ir à praça em 1994.

  Um pouco mais crescidos, os quatro passaram a adolescência em festas — garantem — regadas a refrigerantes. Mas a animação nem por isso era menor. ‘‘A galera toda se juntava na casa de um amigo para ouvir Disco (a música dançante dos anos 70) a noite inteira’’, recorda-se Ana Maria. Garotos e garotas iam a pé para as reuniões, eletrolas e long-plays debaixo do braço, despreocupados com a violência. Entre os amigos de Ana, as reuniões tinha até nome: hi-fi.

  Em 1980, momento marcante no Festival Interno do Colégio Objetivo (o Fico). Na bagunça da torcida dos alunos, Marcus Vinícius ouviu o que viria a ser sucesso em 1987. Renato Russo, líder do então Aborto Elétrico, entoava a letra de Que país é esse?, lançada no terceiro álbum da Legião Urbana sete anos depois. ‘‘Nem acreditei quando ouvi a canção naquele disco’’, diz Marcus.

  Gilberto Salomão? Só depois dos 18 anos (bem diferente de agora...). Abaixo dessa idade, apenas a matinê. A Zoom atraía jovens de todas as quadras. Marcus Vinícius, por exemplo, era freqüentador assíduo. Tharsis ia algumas vezes. A rigidez dos pais fez as meninas aproveitarem menos. Mas sempre se podia burlar a vigilância com bilhetes pelas janelas...

  A corrida inclemente ao vestibular começou nos primeiros anos de 80. Tharsis passou na UnB para Engenharia; Irandiaia, para Letras no Ceub; Marcus Vinícius, para Geologia na UnB, embora acabasse optando por jornalismo dois anos depois. Entre eles, Ana Maria foi a única a não cursar faculdade. E a única a casar cedo, aos 23 anos.

  Enquanto estudavam, Brasília passava pelo movimento das Diretas, pela derrota em plenário, pela escolha de Tancredo Neves. E pelo sentimento de frustração que sua morte causou. Marcus Vinícius foi ao velório e enfrentou uma fila de gente que se estendia por centenas de metros. ‘‘Parecia que ninguém estava entendendo muito bem. As pessoas acreditavam em um recomeço e foram surpreendidas’’, conta. O jeito era tocar a vida, com Plano Cruzado I, II...

  Tempos de arrocho salarial, empobrecimento, invasões no Plano Piloto. A cidade estava crescendo. Em 1989, a criação do então assentamento de Samambaia trouxe milhares de pessoas de outros estados na esperança de conseguir um lote. Mas faltou emprego.

  ‘‘A população cresceu de uma forma assustadora, os assentamentos diminuíram a qualidade de vida da cidade porque o mercado de trabalho não conseguiu absorver todo mundo’’, impressiona-se Irandiaia, há seis anos funcionária pública da Imprensa Nacional. ‘‘Por isso a violência assusta tanto, acabamos perdendo a tranqüilidade de cruzar com as pessoas sem achar que pode ser um assalto’’, continua a moradora do Cruzeiro Novo, que tem grades em todas as janelas.

  Para quem nasceu em Brasília, a insegurança é o grande problema neste aniversário de 40 anos. Mãe de três filhos, de 9 a 12 anos de idade, Ana Maria também vive em um apartamento protegido, na mesma quadra onde passou a infância sem ligar para assaltos e seqüestros. Seus filhos não viverão tanta tranqüilidade. Nem a pequena Camila, de 11 meses, filha de Marcus Vinícius, que está casado há dois anos com Dorothy.

  Mesmo assim os brasilienses se orgulham — e muito — da cidade onde nasceram. E a consideram melhor do que nas décadas passadas em vários aspectos, como urbanização e opções de lazer. Pois é, para eles não cola a velha história de que em Brasília não há nada para fazer. ‘‘Há mais bares, mais shoppings, mais boates, mais clubes, mais cinemas, só faltam mais salas de teatro e peças do Rio e de São Paulo’’, acredita Tharsis, fiscal de obras da Administração Regional de Brasília e formando em Direito na UnB.

  Mesmo consciente das deficiências da cidade, Marcus Vinícius, funcionário público do Senado Federal, não a trocaria. Ainda mais ao pensar no futuro da filha. ‘‘Temos mais chance de criar bem nossos filhos e dar a eles uma boa qualidade de vida’’, resume.

  Os quatro torcem para que a capital sofra melhorias no futuro, principalmente para que possam andar novamente com calma pelas ruas. As mudanças também serão vividas por eles. Depois de mais de dez anos como dona-de-casa, Ana Maria prepara uma reviravolta: está se divorciando e quer voltar ao mercado de trabalho. Irandiaia também tem novidades. Noiva há dois anos pela Internet — o namorado mora na longínqua Porto Alegre —, ela pretende se casar em breve. E encomendar um filho ainda este ano.

 

Personagem do dia
O homem das faixas

Juliana Monteiro
Especial para o Correio

Nehil Hamilton
Francisco César Abreu: polêmica

Há dez anos apareceu a primeira faixa, na frente da distribuidora de bebidas MDG. Desejava boas-festas aos clientes. A idéia pegou. Hoje, as faixas do cearense Francisco César de Oliveira Abreu, 48 anos, somam mais de 300. A maioria exibe frases de protesto que brevemente serão reunidas em livro. César Abreu veio para Brasília em 1975. A cada dez dias, ele substitui as faixas que mantém na frente da distribuidora. As frases polêmicas e muito bem-humoradas lhe renderam fama e simpatia na cidade, mas geraram alguns desafetos. Algumas foram arrancadas, e César já foi ameaçado de morte.

Por que você veio para Brasília?

Vim para a capital ganhar a vida como economista, em 1975.

O que mais gosta aqui?

Gosto do clima e das pessoas. Convivemos com gente de todos os tipos. Temos a malandragem do carioca, o jeitinho do baiano, a seriedade do paulista. Com essa bagunça, Brasília é a cara do Brasil.

O que mais detesta?

Essa dicotomia Roriz/PT. O Roriz está preocupado em destruir tudo que o Cristovam fez.

O que mais falta à cidade?

Segurança e emprego para esse pessoal todo.

Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista?

À Esplanada. E falaria na frente do Palácio do Planalto: falta um homem de bem aqui, alguém que ame o Brasil

O dia ou a noite de Brasília?

As 24 horas.

De onde a vista de Brasília é mais bonita?

Ainda não fui, mas vi com os olhos da minha mulher. Ela falou que construíram uma espécie de Ermida perto do Posto Colorado. Parece ser a vista mais bonita.

O que você responde quando alguém fala mal de Brasília?

É uma injustiça muito grande. Em São Paulo chegam a olhar com desconfiança um cheque de Brasília. Me dói. Não sou corrupto nem ladrão. Temos 2 milhões de habitantes e não 2 milhões de corruptos.

 


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