A cidade era pequena. Incompleta, com ruas ainda por asfaltar e nuvens
de poeira invadindo casas e apartamentos. Brasília cresceria aos poucos.
Com ela, a primeira geração de brasilienses legítimos, pequenos personagens
do centro urbano em construção. Nascidas na década de 60, essas crianças
viveram as transformações da capital do país paralelamente às suas próprias
mudanças.
Elas hoje perto dos 40 anos de idade. Passaram pelo golpe militar,
pelos anos da ditadura, pela copa de 70, pelo estado de sítio no dia
da votação das Diretas Já, pelo rock Brasília, pelo impeachment de Collor.
Também curtiram os passeios na Esplanada, com direito a alimentar
os cisnes no lago do Congresso, as brincadeiras ‘‘embaixo do bloco’’
até tarde da noite, a lama em frente aos prédios, as discotecas do Gilberto
Salomão.
Quatro histórias de brasilienses comuns, gente que cresceu, estudou
e vive na cidade. Histórias que passam longe de relatos oficiais, gabinetes
de políticos. São cotidianas.
É dia 17 de outubro de 1960. No quarto andar do Hospital Distrital
(atual Hospital de Base), dona Nelzira dá à luz a primeira filha, Irandiaia
Glaicy Fátima Bruno. A menina de olhos verdes, filha de pais goianos
que chegaram à capital em 1957, será, inclusive, carregada por Juscelino
Kubitschek, poucos meses depois do nascimento. A mãe conta o episódio
até hoje, cheia de orgulho.
Foi na Candangolândia, no acampamento dos funcionários da Novacap,
onde o pai, seu Donato, era chefe de abastecimento, que a garota passou
a infância. Amigos não faltavam, tamanha a quantidade de recém-casados
e famílias instaladas no local. A criançada brincava na rua de terra,
nos quintais. Não havia grades nem muros nem portões trancados. ‘‘Tinha,
no máximo, uma cerca de arame para impedir que as galinhas fugissem’’,
lembra Iran, como é chamada.
Pois a rua, o apartamento cheio de meninos também são as primeiras
lembranças de outros tantos brasilienses, como Tharsis Monteiro de Castro
Campos, nascido no dia 15 de março de 1964. Na 103 Sul, onde ainda vive
com a mãe, o então garoto contava mais de 30 amigos. Entre as brincadeiras
mais divertidas, a molecada armava expedições aos prédios em construção
— como o Cine Centro São Francisco e os próprios edifícios da quadra.
A aventura era conseguir passar sem que fossem pegos pelos vigias.
Jogar futebol na grama recém-plantada pela Novacap era outro desafio.
‘‘Sempre tinha alguém que avisava quando o graminha (fiscais da empresa
que cuidavam dos gramados) estava chegando para a gente correr dali’’,
lembra-se Tharsis, filho de mãe mineira e pai goiano. Antes de se mudar
para o apartamento, a família havia morado em um acampamento para engenheiros
próximo à Vila Planalto. Foi onde o menino, o segundo de três filhos,
completou o primeiro ano de vida.
Redemoinhos de poeira
Muita terra e um calor imenso, vento e redemoinhos de pó. As recordações
de infância se assemelham nas quadras sem asfalto do Plano Piloto. Marcus
Vinícius Bastos Lopes, que nasceu no dia 21 de setembro de 1963 também
no Hospital Distrital, se divertia com os amigos da 304 Sul na lama
formada pelas chuvas. Enquanto isso, Ana Maria de Morais e Souza preferia
jogar bolinha de gude, empinar pipa em frente ao prédio na 409 Sul,
onde vivia a família de 11 irmãos — contando as caçulas Ana Maria e
sua irmã gêmea Ana Paula, nascidas em 9 de julho de 1964.
Aos domingos, programas sagrados de todas as crianças: zoológico,
Esplanada, aeroporto, passeio no Lago. O Parque da Cidade sequer existia.
Para Irandiaia, cujo pai não tinha carro, não podia faltar a Rodoviária,
para comer pastel. Com caldo-de-cana, claro.
A meninada ainda curtiu a copa de 70, se espremendo na Esplanada
para cumprimentar os jogadores. Demorou muito tempo para que os aplausos
pudessem se repetir. Mais de 20 anos depois, Marcus Vinícius fez questão
de ir à praça em 1994.
Um pouco mais crescidos, os quatro passaram a adolescência em festas
— garantem — regadas a refrigerantes. Mas a animação nem por isso era
menor. ‘‘A galera toda se juntava na casa de um amigo para ouvir Disco
(a música dançante dos anos 70) a noite inteira’’, recorda-se Ana Maria.
Garotos e garotas iam a pé para as reuniões, eletrolas e long-plays
debaixo do braço, despreocupados com a violência. Entre os amigos de
Ana, as reuniões tinha até nome: hi-fi.
Em 1980, momento marcante no Festival Interno do Colégio Objetivo
(o Fico). Na bagunça da torcida dos alunos, Marcus Vinícius ouviu o
que viria a ser sucesso em 1987. Renato Russo, líder do então Aborto
Elétrico, entoava a letra de Que país é esse?, lançada no terceiro álbum
da Legião Urbana sete anos depois. ‘‘Nem acreditei quando ouvi a canção
naquele disco’’, diz Marcus.
Gilberto Salomão? Só depois dos 18 anos (bem diferente de agora...).
Abaixo dessa idade, apenas a matinê. A Zoom atraía jovens de todas as
quadras. Marcus Vinícius, por exemplo, era freqüentador assíduo. Tharsis
ia algumas vezes. A rigidez dos pais fez as meninas aproveitarem menos.
Mas sempre se podia burlar a vigilância com bilhetes pelas janelas...
A corrida inclemente ao vestibular começou nos primeiros anos de
80. Tharsis passou na UnB para Engenharia; Irandiaia, para Letras no
Ceub; Marcus Vinícius, para Geologia na UnB, embora acabasse optando
por jornalismo dois anos depois. Entre eles, Ana Maria foi a única a
não cursar faculdade. E a única a casar cedo, aos 23 anos.
Enquanto estudavam, Brasília passava pelo movimento das Diretas,
pela derrota em plenário, pela escolha de Tancredo Neves. E pelo sentimento
de frustração que sua morte causou. Marcus Vinícius foi ao velório e
enfrentou uma fila de gente que se estendia por centenas de metros.
‘‘Parecia que ninguém estava entendendo muito bem. As pessoas acreditavam
em um recomeço e foram surpreendidas’’, conta. O jeito era tocar a vida,
com Plano Cruzado I, II...
Tempos de arrocho salarial, empobrecimento, invasões no Plano Piloto.
A cidade estava crescendo. Em 1989, a criação do então assentamento
de Samambaia trouxe milhares de pessoas de outros estados na esperança
de conseguir um lote. Mas faltou emprego.
‘‘A população cresceu de uma forma assustadora, os assentamentos
diminuíram a qualidade de vida da cidade porque o mercado de trabalho
não conseguiu absorver todo mundo’’, impressiona-se Irandiaia, há seis
anos funcionária pública da Imprensa Nacional. ‘‘Por isso a violência
assusta tanto, acabamos perdendo a tranqüilidade de cruzar com as pessoas
sem achar que pode ser um assalto’’, continua a moradora do Cruzeiro
Novo, que tem grades em todas as janelas.
Para quem nasceu em Brasília, a insegurança é o grande problema neste
aniversário de 40 anos. Mãe de três filhos, de 9 a 12 anos de idade,
Ana Maria também vive em um apartamento protegido, na mesma quadra onde
passou a infância sem ligar para assaltos e seqüestros. Seus filhos
não viverão tanta tranqüilidade. Nem a pequena Camila, de 11 meses,
filha de Marcus Vinícius, que está casado há dois anos com Dorothy.
Mesmo assim os brasilienses se orgulham — e muito — da cidade onde
nasceram. E a consideram melhor do que nas décadas passadas em vários
aspectos, como urbanização e opções de lazer. Pois é, para eles não
cola a velha história de que em Brasília não há nada para fazer. ‘‘Há
mais bares, mais shoppings, mais boates, mais clubes, mais cinemas,
só faltam mais salas de teatro e peças do Rio e de São Paulo’’, acredita
Tharsis, fiscal de obras da Administração Regional de Brasília e formando
em Direito na UnB.
Mesmo consciente das deficiências da cidade, Marcus Vinícius, funcionário
público do Senado Federal, não a trocaria. Ainda mais ao pensar no futuro
da filha. ‘‘Temos mais chance de criar bem nossos filhos e dar a eles
uma boa qualidade de vida’’, resume.
Os quatro torcem para que a capital sofra melhorias no futuro, principalmente
para que possam andar novamente com calma pelas ruas. As mudanças também
serão vividas por eles. Depois de mais de dez anos como dona-de-casa,
Ana Maria prepara uma reviravolta: está se divorciando e quer voltar
ao mercado de trabalho. Irandiaia também tem novidades. Noiva há dois
anos pela Internet — o namorado mora na longínqua Porto Alegre —, ela
pretende se casar em breve. E encomendar um filho ainda este ano.