Tem gente que acha o fino do brega. Cafonérrimo. Ficam arrepiados só
de pensar. Outros, não dispensam a dupla. Faça sol, faça chuva, em qualquer
hora, basta esbarrar em uma banca de pastel frito com caldo de cana
e o estômago parece querer roncar. É fome na certa.A dobradinha pode
ser encontrada em qualquer esquina, em qualquer birosca, nos fundos
de quintais, em trailers improvisados e quiosques. ‘‘O que vai aí, chefe?’’,
indaga o vendedor do outro lado do balcão. ‘‘O de sempre’’, responde
o freguês. Diálogo comum de pastelaria. Aliás, pastel e garapa são sinônimos
de freguesia antiga. Acabam virando negócio certo, fora de moda ou não.
Basta ter a sorte de conseguir um ponto bom, a certeza de que a mistura
de água, sal e farinha está na medida certa e uma boa mão na hora de
sovar a massa.
Pastel também gera filhos. Mineiro de Barra Longa, uma cidadezinha
encravada perto de Mariana, Sebastião Gomes da Silva, que fundou a pastelaria
Viçosa, tradicional em Brasília, sabe disso. Tião Padeiro, como também
é conhecido, costuma dizer que ganhou um presente e tanto de casamento.
Recém-casado, ele e a mulher escolheram Belo Horizonte para a lua-de-mel.
Só não contavam que iam perder o ônibus no dia da viagem. Chegaram atrasados
à Rodoviária, que na década de 60 funcionava no Plano Piloto. Viagem
perdida, mas sorte nos negócios.
A lua-de-mel ocorreu em uma das suítes do Brasília Palace Hotel.
E com um tempero especial — o destino do comerciante Sebastião Gomes
da Silva mudou na Rodoviária. Bastou provar um dos pastéis vendidos
pelo ambulante Eugênio Apolônio que Tião descobriu a mina. Gostou do
salgado, propôs sociedade ao ambulante e, nos anos 60, nascia a pastelaria
Viçosa, ali mesmo, na Rodoviária do Plano Piloto.
O homem que já entendia de comércio — aos 9 anos vendia na rua os
doces feitos pela mãe — aprendeu a negociar. ‘‘A gente procura fazer
bem. E aí, devagar, tudo na vida dá certo. Basta fazer com amor’’, ensina
o comerciante de 71 anos. Ele repassou o negócio para os filhos, porém,
continua no ramo de panificação. ‘‘Acreditei num homem e firmei a sociedade’’,
completa.
Hoje, são duas pastelarias na plataforma inferior da Rodoviária,
uma produção média de aproximadamente 20 mil pastéis por dia em toda
a rede. A pastelaria tem uma filial no Pátio Brasil Shopping e fornece
massa para vários pontos comerciais da cidade. ‘‘Brasília inteira já
comeu o pastel da Viçosa’’, gaba-se Sebastião.
Pode ser de queijo, carne, frango ou palmito, raramente os clientes
deixam de repetir a dose. A diarista Maria Lucileide Timóteo, 33 anos,
é freguesa da Viçosa há mais de 10. Quando percebe que a calça não está
mais frouxa na cintura, pára uns dias, embora não resista. ‘‘Sempre
que passo pela Rodoviária como um e levo outros para os filhos’’, conta.
Barato como é — um pastel custa R$ 0,50 e o copo de caldo R$ 0,50, fica
difícil virar as costas para o balcão. ‘‘Acho bom. Mata a fome’’, garante
Lucileide.
Outro fã da dobradinha é o goiano Gérson Martins, 30 anos. ‘‘Engana
o estômago’’, afirma. Criado em fazenda, acostumado com garapa fresca,
Gerson coloca umas gotinhas de limão para temperar o caldo.
Mas, quem não dispensa essas guloseimas, precisa saber que ambas
contêm açúcar e gordura. Quer dupla mais inimiga da balança e do colesterol?
O nutricionista Henrique Freire, professor do departamento de Nutrição
da Universidade de Brasília (UnB) adverte: pastel com caldo de cana
não são indicados como refeição. ‘‘As pessoas não estão ingerindo fibras,
minerais e vitaminas. Apenas ganham energia em função do açúcar’’, justifica.
Calorias não faltam. Especialista em nutrição clínica, Henrique Freire
estima que um copo de 200 ml de caldo de cana equivale a duas colheres
de sopa de açúcar, pouco mais de 220 calorias. Um pastel grande, de
40 gramas, tem 100 calorias que podem chegar a 200, dependendo do recheio.
Agora, se fica impossível resistir a uma das duplas mais conhecidas
da cidade, então, procure estabelecer uma alimentação saudável. Escolha
o recheio do pastel com tomate, milho, queijo e orégano (fibras e vitaminas)
e coloque gelo no caldo de cana para diminuir o teor de açúcar. No mais,
bom apetite.