FALTAM 28 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Feitos um para o outro

O lanche mais bem-sucedido de Brasília custa R$ 1, tem 420 calorias e fez a fortuna de Tião, o da viçosa

 

Adriana Baumgratz
Da equipe do Correio

/// Imagem manipulada em computador ///Arte de Toni Lucena com foto de Carlos Vieira
Tião Padeiro, o homem do pastel com caldo de cana

Tem gente que acha o fino do brega. Cafonérrimo. Ficam arrepiados só de pensar. Outros, não dispensam a dupla. Faça sol, faça chuva, em qualquer hora, basta esbarrar em uma banca de pastel frito com caldo de cana e o estômago parece querer roncar. É fome na certa.A dobradinha pode ser encontrada em qualquer esquina, em qualquer birosca, nos fundos de quintais, em trailers improvisados e quiosques. ‘‘O que vai aí, chefe?’’, indaga o vendedor do outro lado do balcão. ‘‘O de sempre’’, responde o freguês. Diálogo comum de pastelaria. Aliás, pastel e garapa são sinônimos de freguesia antiga. Acabam virando negócio certo, fora de moda ou não. Basta ter a sorte de conseguir um ponto bom, a certeza de que a mistura de água, sal e farinha está na medida certa e uma boa mão na hora de sovar a massa.

  Pastel também gera filhos. Mineiro de Barra Longa, uma cidadezinha encravada perto de Mariana, Sebastião Gomes da Silva, que fundou a pastelaria Viçosa, tradicional em Brasília, sabe disso. Tião Padeiro, como também é conhecido, costuma dizer que ganhou um presente e tanto de casamento. Recém-casado, ele e a mulher escolheram Belo Horizonte para a lua-de-mel. Só não contavam que iam perder o ônibus no dia da viagem. Chegaram atrasados à Rodoviária, que na década de 60 funcionava no Plano Piloto. Viagem perdida, mas sorte nos negócios.

CALORIAS

220 Caldo de cana

200 Pastel

420 Total

  A lua-de-mel ocorreu em uma das suítes do Brasília Palace Hotel. E com um tempero especial — o destino do comerciante Sebastião Gomes da Silva mudou na Rodoviária. Bastou provar um dos pastéis vendidos pelo ambulante Eugênio Apolônio que Tião descobriu a mina. Gostou do salgado, propôs sociedade ao ambulante e, nos anos 60, nascia a pastelaria Viçosa, ali mesmo, na Rodoviária do Plano Piloto.

  O homem que já entendia de comércio — aos 9 anos vendia na rua os doces feitos pela mãe — aprendeu a negociar. ‘‘A gente procura fazer bem. E aí, devagar, tudo na vida dá certo. Basta fazer com amor’’, ensina o comerciante de 71 anos. Ele repassou o negócio para os filhos, porém, continua no ramo de panificação. ‘‘Acreditei num homem e firmei a sociedade’’, completa.

  Hoje, são duas pastelarias na plataforma inferior da Rodoviária, uma produção média de aproximadamente 20 mil pastéis por dia em toda a rede. A pastelaria tem uma filial no Pátio Brasil Shopping e fornece massa para vários pontos comerciais da cidade. ‘‘Brasília inteira já comeu o pastel da Viçosa’’, gaba-se Sebastião.

  Pode ser de queijo, carne, frango ou palmito, raramente os clientes deixam de repetir a dose. A diarista Maria Lucileide Timóteo, 33 anos, é freguesa da Viçosa há mais de 10. Quando percebe que a calça não está mais frouxa na cintura, pára uns dias, embora não resista. ‘‘Sempre que passo pela Rodoviária como um e levo outros para os filhos’’, conta. Barato como é — um pastel custa R$ 0,50 e o copo de caldo R$ 0,50, fica difícil virar as costas para o balcão. ‘‘Acho bom. Mata a fome’’, garante Lucileide.

  Outro fã da dobradinha é o goiano Gérson Martins, 30 anos. ‘‘Engana o estômago’’, afirma. Criado em fazenda, acostumado com garapa fresca, Gerson coloca umas gotinhas de limão para temperar o caldo.

  Mas, quem não dispensa essas guloseimas, precisa saber que ambas contêm açúcar e gordura. Quer dupla mais inimiga da balança e do colesterol? O nutricionista Henrique Freire, professor do departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB) adverte: pastel com caldo de cana não são indicados como refeição. ‘‘As pessoas não estão ingerindo fibras, minerais e vitaminas. Apenas ganham energia em função do açúcar’’, justifica.

  Calorias não faltam. Especialista em nutrição clínica, Henrique Freire estima que um copo de 200 ml de caldo de cana equivale a duas colheres de sopa de açúcar, pouco mais de 220 calorias. Um pastel grande, de 40 gramas, tem 100 calorias que podem chegar a 200, dependendo do recheio.

  Agora, se fica impossível resistir a uma das duplas mais conhecidas da cidade, então, procure estabelecer uma alimentação saudável. Escolha o recheio do pastel com tomate, milho, queijo e orégano (fibras e vitaminas) e coloque gelo no caldo de cana para diminuir o teor de açúcar. No mais, bom apetite.


Que delícia de pé-sujo
 

  Um pingado (café com leite quente) com um pedaço de bolo de aipim logo cedo. Ainda de manhã, uma coxinha frita na hora para esperar o prato feito no almoço. Abarrotado de arroz, feijão, carne e macarrão. Cardápio variado que pode ser encontrado em biroscas, trailers, quiosques, pés-sujos.

  O que mostra que o brasiliense gosta, mas não vive só de pastel e caldo de cana. Localizados perto de canteiros de obras e paradas de ônibus, as biroscas têm, em geral, balcões improvisados nos quais exibem vidros com balas, pipocas, bolos e bandejas de garrafas térmicas. Como no trailer de Januário Pinheiro, 38 anos, instalado entre o setor Sudoeste e o Parque da Cidade. Na parede, pintado em azul, a frase ‘Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha’, ajuda a espantar o mau-olhado. O carro-chefe das vendas fica por conta do cafezinho com bolo de mandioca. Tudo por R$ 0,75.

  Mais adiante, no Setor de Oficinas Sul (SOF), os quiosques, oferecem, em geral, prato feito por R$ 2 ou R$ 3 e lanches rápidos. Leila Dionísio até tentou vender frango assado. ‘‘Mas não deu lucro’’, recorda. Passou a fazer salgados — coxinha, esfira e pastel.

  Dados da Administração de Brasília apontam que a cidade abriga perto de 1.200 trailers e quiosques. No Lago Norte, na QI, a Quituart, uma associação de moradores, com 62 boxes, vende artesanato e comida pronta. Crepe, frutos do mar, carnes exóticas e picanhas.

  As feiras viraram uma extensão do cardápio do brasiliense. Na do Guará, caldo de mocotó, pato no tucupi e comida goiana. Na dos Importados, perto de 90 quiosques têm um pouco de tudo. Do churrasquinho à costela assada na brasa. É só escolher. (AB)

 


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