Pelas mais diversas razões, eles escolheram Brasília para viver. Uns
chegam procurando um grande amor, outros vêm pelo estudo ou profissão
e há, ainda, os que buscam apenas uma aventura no Planalto Central.
Motivos existem de sobra para justificar a escolha dos 10.354 estrangeiros
que vivem nesta cidade de terra seca e pôr-do-sol estonteante.
A convivência com os brasilienses rende histórias engraçadas. Um
canadense, por exemplo, lembra de quando, recém-chegado ao país e ainda
com dificuldade para falar português, se animou durante a conversa com
uma senhora a quem acabara de ser apresentado. Na hora de se despedir,
ela disse: ‘‘Ah, você é um barato!’’. Sem hesitar ele respondeu: ‘‘E
você é uma barata!’’.
Fora as confusões com a língua, eles ainda precisam aprender a driblar
a solidão de uma cidade sem esquinas e que não tem um ponto de encontro
específico. Cidade que é meio metropolitana e meio provinciana, dependendo
da comparação que eles fazem com a terra natal. Para quem vem de Nova
York, isto aqui é pouco. Para quem vem de Bonn, é uma imensidão.
Segundo os dados do Sistema Nacional de Cadastro e Registro de Estrangeiros
(Sincre), dos mais de dez mil ‘‘gringos’’ que moram aqui, 1,7 mil são
da comunidade diplomática e mantêm vínculos com as 80 embaixadas da
cidade. Os outros são estudantes, jornalistas, asilados políticos e
refugiados. Muitos passam uma temporada — no caso de instalações de
franquias e escritórios multinacionais — e vão embora. Grande parte
se apaixonou por Brasília e não quer mais saber de voltar para casa.
A africana
Olanrewaju Dosunmu é conhecida no Centro Olímpico da Universidade
de Brasília (UnB) como Rashidat, nome que para os muçulmanos significa
‘‘a bem encaminhada’’. E a estudante de administração de empresas nascida
na Nigéria garante: ‘‘Graças a Deus resolvi mudar para Brasília, porque
não poderia ter escolhido um destino melhor’’.
Rashidat saiu de Lagos, cidade com o dobro de habitantes de Brasília,
para um intercâmbio na UnB. Formanda, ela sonha com o dia em que conseguirá
abrir uma organização cultural Brasil-Nigéria, porque tem na família
laços profundos com as duas nações. ‘‘Meus ancestrais foram trazidos
para cá na época da escravidão e, por isso, algumas gerações da família
são brasileiras’’, conta orgulhosa.
Nas férias ela gosta de viajar para conhecer cada canto do país que
escolheu para fazer a maior parte de seu curso superior. Mas considera
Brasília o melhor lugar quando o assunto é qualidade de vida: ‘‘O Rio
de Janeiro e Salvador são muito legais, mas só para passear. Não me
imagino morando em nenhuma outra cidade brasileira.’’
Ela enumera razões para gostar tanto daqui: ‘‘Brasília é uma cidade
calma, organizada. As pessoas não ficam fumando em tudo quanto é canto,
o que é uma grande falta de respeito. Outra coisa legal é que aqui tem
gente do mundo inteiro’’.
Rashidat também tem opinião bem formada sobre os ônibus da cidade.
‘‘Não chegam a ser superlotados e são limpos’’. Certamente ela sabe
o que está dizendo, pois pega quatro ônibus diariamente para fazer o
percurso do trabalho, um estágio no Senado Federal que lhe garante os
R$ 300 de bolsa com os quais sobrevive.
‘‘Quem tem carro aqui está feito, mas quem não tem às vezes fica
impossibilitado de sair, de se divertir’’, lamenta. Mesmo assim ela
não perde o rebolado. Na época do carnaval, vira fã de carteirinha do
Caldeirão da Folia e gosta de ir à boate Metrópole, no Lago Sul, com
os amigos. ‘‘Mas o melhor point de Brasília é mesmo o Projeto Orla.
Aquele lugar é lindo’’.
A norte-americana
Tammy Colson do Nascimento veio para o Brasil em 1974, aos 3 anos.
O futuro era viver em um lugar pelo menos 35 graus mais quente: Cuiabá
(MG).
Antes de chegar ao Mato Grosso, a família morou em Campinas (SP)
durante um ano. Bruce e sua mulher, June, faziam cursinho de português
enquanto Kimberly, a mais velha, Tammy e Heidi, a caçula, tentavam se
comunicar com os vizinhos. A empregada também era uma professora para
as três irmãs.
Com tantas brincadeiras, elas aprenderam a falar português bem mais
rápido do que os pais, por mais que eles estudassem. ‘‘Todas as vezes
que a campainha tocava, a minha mãe me colocava entre ela e a porta.
Eu era a tradutora da casa, porque a Kim era muito tímida, e a Heidi
muito pequena’’.
Tammy cresceu entre duas culturas. Em casa, o combinado era falar
inglês, porque as meninas estavam perdendo a língua materna de tanto
viverem rodeadas de brasileiros. Desde cedo, Tammy e as irmãs estudaram
em colégios internacionais para não saírem do sistema de educação dos
Estados Unidos. A família precisava voltar à terra natal a cada dois
anos para prestar contas à missão evangélica que os sustentava no Brasil,
a Missiana Brazil Christian Mission, um grupo de igrejas do estado de
Indiana e de Michigan.
Naquele tempo, a Escola das Nações, onde estudavam, ainda não tinha
professores de segundo grau. Elas e os outros alunos estudavam por correspondência.
Todas as provas eram enviadas por uma escola do estado de Nebraska e
depois remetidas de volta.
Toda a família voltou para os Estados Unidos, menos Tammy, que casou
com um brasileiro. ‘‘Tem gente que vai para os Estados Unidos atrás
de dinheiro e trabalho, mas eu não troco Brasília e os meus amigos daqui
por lugar nenhum’’, diz.
Tammy e o marido fazem planos para a chegada do primeiro filho. Vão
ampliar o costume de falar inglês entre eles, assim como na infância
de Tammy: ‘‘Acho que a oportunidade de viver minhas duas culturas foi
um grande tesouro que meus pais me deram e por isso queremos passar
isso aos nossos filhos’’. Estados Unidos? ‘‘Só para passear’’, diz a
brasiliense de mentirinha.
O libanês
Na Copa do Mundo, além da torcida de 160 milhões de ‘‘canarinhos’’,
a seleção brasileira conta com o apoio de 90% dos libaneses. É o que
garante a família Kalout, cativada pelas imagens por tevê de um Brasil
feliz, de um povo vibrante e, principalmente, pacífico.
Até 1990 os Kalout moravam em Sidom, no sul do Líbano. A região é
uma das mais violentas do mundo. O Hezbolá — a guerrilha fundamentalista
islâmica — e o Exército do Sul do Líbano, grupo cristão armado patrocinado
pela Síria, vivem em intenso confronto com Israel. Tanta guerra já deixou
vários mortos na família e muitos, muitos traumas.
No começo da década, Ali e Kaerig concluíram que o bom padrão de
vida que tinham em Sidom não compensava tanto sofrimento. ‘‘Jamais quis
que o meu filho se envolvesse com a guerra, por isso decidimos sair
do Líbano’’, conta Kaerig. Quando o casal veio para Brasília, os filhos
Hassan e Fátima eram crianças. Chegaram sem nada. O fato de a irmã de
Ali morar aqui com o marido brasileiro facilitou a escolha .
A família Kalout nunca agiu como turista. ‘‘Tentamos nos adaptar
e ter a rotina de trabalho e de vida do brasilienses’’, lembra. A fórmula
deu certo. ‘‘Esta é uma cidade carinhosa. Parece colo de mãe: cabe o
mundo inteiro’’, compara Kaerig.
Ela e o marido são gratos aos brasilienses. ‘‘Todos nos receberam
de braços abertos quando precisávamos estabelecer novos contatos sociais
para assimilar a cultura e a língua’’, acrescenta Ali. Prova disso é
que os amigos da família são todos brasileiros. ‘‘A maioria era cliente
daqui e começou a manter uma amizade mais próxima. Hoje freqüentamos
as casas uns dos outros’’, aponta Kaerig.
Como trabalham de 7h até 24h, Ali, Kaerig e os filhos não têm o hábito
de passear muito. ‘‘Eu mesma nunca fui além de Taguatinga, mas sei que
vivo em um paraíso. A paz que nós temos é melhor do que qualquer coisa’’,
reconhece Kaerig.
O alemão
O diplomata Joachim Schemel chegou aqui em agosto de 1997 e já começa
a arrumar as malas. Ele vai voltar para a sua casa na antiga capital
alemã, Bonn. A mulher, Jennifer, uma terapeuta de medicina alternativa,
e o filho, Christoph, estudante da Escola Americana, preparam-se para
a nova mudança, uma das muitas que a carreira diplomática exige.
Joachim gosta de Brasília, tanto que nunca trocaria a cidade pelo
Rio de Janeiro ou por São Paulo. ‘‘Aqui, não vemos poluição e nos sentimos
um pouco mais seguros do que nas metrópoles do sudeste’’, comenta.‘‘Todos
nós gostaríamos de ficar mais tempo em Brasília. A cidade é verde, espaçosa.’’,
elogia.
Acostumado com as cidades alemãs, Joachim acha que falta em Brasília
um centro tradicional, onde as pessoas possam passear tranqüilas nos
fins de semana. Ele costuma caminhar com Jennifer na Península dos Ministros,
na QI 11, mas acha que as margens do Lago Paranoá estão sendo muito
mal-aproveitadas. ‘‘É impossível passear por um trecho mais longo sem
dar de cara com os muros das casas e dos clubes’’, lamenta ele, que
é assessor da embaixada da Alemanha.
Ele e a família juram que sentirão muita saudade daqui e lamentam
o descuido na área do turismo. Acostumado com a tarefa de receber conterrâneos
em visita à cidade, Joachim lembra de momentos embaraçosos, como o dia
em que levou um membro do governo alemão a uma exposição no Museu do
Índio. Chegando lá, eles deram de cara com a porta fechada, apesar de
a exposição ter sido anunciada em jornais da cidade. ‘‘A cultura indígena
é uma das coisas que mais atrai o turista, porque é algo totalmente
diferente do que há na Europa’’, justifica.
O australiano
Uma linda história de amor nas praias de Brisbane, na Austrália,
fez o analista de sistemas David Lestani ‘‘cair de pára-quedas’’ em
Brasília. A paixão pela brasileira Juliana Merçon, uma estudante de
psicologia da Universidade de Brasília (UnB) que fazia um intercâmbio
cultural na Austrália, foi maior que a comodidade do emprego ou a facilidade
de viver perto da família.
David se casou com Juliana em pouco tempo e começou aprender com
ela a nova língua. Juliana, os professores particulares e o cursinho
intensivo de português da UnB deram conta do serviço: hoje David fala
português perfeitamente. Trabalha em uma empresa de informática no Setor
Comercial Norte.
David acha o clima de Brisbane parecido com o de Brasília: ‘. Aqui,
quando chove, chove com força e dia de seca é quase insuportável’’.
Com esse jeito tão brasiliense de se queixar do clima, David provou
que já conhece bem a cidade que escolheu para continuar vivendo seu
grande amor.