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Água para sempre

Desafio para o século XXI: como administrar os recursos hídricos do DF

 

Freddy Charlson
Da equipe do Correio

Adauto Cruz 6.6.99
Conservação e limpeza dos mananciais de água: uma das soluções para evitar problemas de abastecimento

Não há viva alma especialista — ou não — na questão ambiental no DF e Entorno que não se preocupe com este problema: vai ser difícil, nos próximos anos, manter nos mesmos níveis o abastecimento de água na região do Distrito Federal. São representantes do GDF e de Organizações não-Governamentais, cientistas, professores e políticos que não fazem questão de esconder o medo de, um dia, ligarem a torneira e não cair um pingo d’água que seja.

  Mas o que essa gente sugere para resolver o problema? Construir outro lago? Evitar desperdícios? Preservar córregos? Educar a população? Construir a represa de Corumbá IV? Reutilizar água de esgoto? Captar água do Lago Paranoá? Conter a ocupação desordenada do solo? Tudo isso e muito mais. Tanto é assim que foi criado, nesta semana, o Colegiado Distrital de Recursos Hídricos.

  Coordenado pelo secretário do Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia (Sematec), Antonio Luiz Barbosa, o grupo, formado por várias entidades, vai gerenciar e implantar uma política de recursos hídricos, além de fiscalizar a legislação de controle, uso, conservação e proteção da água. ‘‘Estamos regulamentando a lei 512/93, a lei das águas do DF, que democratiza e descentraliza a gestão dos recursos hídricos’’, disse Antonio Barbosa.

Os projetos da água
Projeto de lei 242/99: Institui a política e cria o sistema de gerenciamento de recursos hídricos do DF. Procura trazer os princípios da lei federal 9.433/97, que valoriza a participação popular, para a lei distrital 512/93.
Projeto de lei 283/99: Concede incentivo tributário para a redução do consumo. Quem economizar 10% ou mais entre maio e outubro, na seca, ganha desconto de 10% no IPTU do ano seguinte.
Projeto de lei 512/99: Proíbe novos pivôs centrais nas zonas rurais e cria incentivos para a erradicação dos existentes. Pretende diminuir o desperdício.
Projeto de lei 1108/2000: Prevê o uso de economizadores de água — dos tipos monocomando, termostato, temporizados ou eletrônicos — nas instalações hidráulicas e sanitárias de prédios não residenciais.
Obs.: Projetos em tramitação na Câmara Distrital e de autoria do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB)

  Ele participou, quinta-feira, da assinatura, entre os governadores Joaquim Roriz (DF) e Marconi Perillo (GO), de acordo para dar a Águas Lindas (GO) abastecimento de água e tratamento de esgoto. É uma boa notícia. Sem coleta regular de lixo e saneamento, a cidade pode contaminar a bacia do Descoberto — que abastece 60% da população do DF — com a sujeira levada pelas enxurradas para o principal manancial da região, área mais crítica para garantir o abastecimento a um milhão de consumidores que dependem do sistema.

  Barbosa acredita que a questão pode ser resolvida com a Barragem de Corumbá IV, a 25 km do Gama. ‘‘Vai atender o DF mais cem anos’’, fala sobre o projeto orçado em R$ 350 milhões, em estudos. Mas o mesmo entusiasmo por Corumbá IV não é demonstrado por João Arnolfo Carvalho, 48, secretário-geral do Fórum de ONGs Ambientalistas do DF e Entorno, que reúne 30 organizações.

  Arnolfo considera que a barragem foi jogada no ar como um balão de ensaio. ‘‘Mas não saiu do papel. Virou um ponto controverso. ONGs de Pirenópolis, Corumbá e Goiânia estão preocupadas com o impacto de Corumbá IV sobre o ecossistema da região. Devemos conservar e limpar os pequenos cursos d’água, em vez de voltarmos os olhos para megassoluções demoradas que piorariam a situação.’’ O ambientalista sugere um estudo independente da situação.

  Idéia que pode ser colocada em prática, nos próximos meses, pela Caesb. A empresa está contratando consultores para elaborar o Plano Diretor de Água e Esgotos. ‘‘Vão apontar soluções para o abastecimento e melhoria no sistema’’, explica o gerente de recursos hídricos da Caesb, Sérgio Collares, que preocupa-se com os próximos seis, sete anos. E, que, por isso, acredita no potencial de Corumbá IV.

  E, também, de outras barragens, como a do sistema do Pipiripau, que deve abastecer, entre 10 a 15 anos, Planaltina e Sobradinho, onde a situação é crítica. A intenção é inaugurar a primeira etapa do sistema (barragem, adutora de água bruta, adutora de água tratada, centro de conservação), com vazão de 400 litros/segundo, em julho. E a segunda etapa, com mais 320 litros de vazão/segundo, em 2001.

O Distrito Federal tem
23
mananciais, que abastecem reservatórios capazes de armazenar
427
milhões de m3 de água. O consumo nas
19
cidades do DF ultrapassa

9,7

milhões de m3 por mês

  ‘‘Podemos aproveitar o ribeirão Taquara, perto da reserva ecológica do IBGE. E o ribeirão do Bananal, no Parque Nacional de Brasília’’, conta Collares, que defendeu as idéias, quinta-feira, no workshop Recursos Hídricos Alternativos para o DF, na Academia de Tênis. E justo a Caesb, que desperdiça três em cada dez litros de água da captação até a casa do consumidor. ‘‘Em alguns pontos, a rede é antiga e tem vazamentos. No Plano Piloto, com instalações conservadas, a perda é de 11%’’, confessa Collares.

  Quem também combate o desperdício e não acredita muito na força das barragens é o PhD em Geologia e hidrogeólogo do Instituto de Estudos e Gestão das Águas, Jorge Cravo, um dos maiores especialistas em recursos hídricos na região. Ele defende o fim do gasto exagerado. Ainda mais durante a seca, quando há menos água nos mananciais de superfície. E quando postos de gasolina dão lavagens grátis para quem abastecer no local.

  Econômico até a raiz, Cravo defende o uso da água da chuva, que iria para os aqüíferos — áreas de acúmulo de água no subsolo —, através de sulcos e caixas de areia. O que aliviaria uma situação crítica: a disponibilidade de água na região de Brasília é menor que 2 mil m³ per capita. (A oferta é de 1.752 m³ per capita.) Segundo o Banco Mundial, um sinal de alerta para problemas na oferta. O banco recomenda a investidores que evitem regiões abaixo do limite.

  No que concorda o secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia, Antonio Barbosa, que sugere a educação dos moradores dos condomínios que tiram água de poços artesianos e fazem fossas inadequadas do ponto de vista ecológico, que podem contaminar a água subterrânea, nem um pouco abundante. Mas, enquanto o PhD sugere o uso da água da chuva, Barbosa prefere a reutilização da água de esgoto na lavagem de veículos, agricultura e irrigação de jardins.

  ‘‘De qualquer forma, Deus faz as coisas certas. Há um manto de rocha chamado cobertura detrito laterítica, uma esponja, acondiciona a água durante o ano e solta o líqüido para os aqüíferos’’, diz Cravo, que gasta até R$ 100 com a conta de água, no Lago Norte — bairro com média de consumo mensal de 55 m³ de água —, onde mora com cinco pessoas. ‘‘Não faço barba com torneira aberta’’, diz o hidrogeólogo, que prega a cartilha de que tudo começa em casa.

  Uma cartilha pela qual reza o deputado distrital Rodrigo Rollemberg (PSB), que — entre quatro projetos sobre o tema — quer dar descontos no IPTU a quem economizar 10% durante a seca, entre maio e outubro. ‘‘Muitos vão tentar, poucos vão conseguir. E teremos redução no consumo’’, diz Rollemberg, que lamenta a situação. E reclama da ocupação desordenada do solo. Para o desperdício, ele sugere a educação ambiental defendida por Jorge Cravo. E para a ocupação, um estudo da situação, como quer Collares, da Caesb.

  Todos, enfim, trabalhando contra os problemas que ameaçam o abastecimento de água no DF, nos próximos anos: queimadas, desmatamentos, erosão, assoreamento; expansão de áreas irrigadas sem estudos de impacto ambiental, contaminação das águas por esgotos sem tratamento; crescimento da população e aumento da demanda e consumo; construção de obras sem cuidados previstos em lei ou autorização dos órgãos competentes; surgimento de loteamentos, invasões e ocupação desordenada de terras rurais e áreas de preservação...

 


Esta é a sexta reportagem de uma série sobre as soluções possíveis para os problemas que ameaçam Brasília nos próximos anos. As cinco primeiras, publicadas nos domingos anteriores, foram: 1) As vocações econômicas do Distrito Federal; 2) As tendências da população do DF para o futuro; 3) Como melhorar o sistema de transportes coletivos de Brasília; 4) Como reduzir as desigualdades sociais; 5) Consórcios municipais para os serviços públicos



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