FALTAM 24 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Ainda há uma chance

GDF garante que tem o dinheiro para bancar a exposição Niemeyer 90 Anos e diz que a Fibra ainda não conseguiu a parte dela, mas que está atrás dos recursos

 
Cristina Ávila
Da equipe do Correio
 
Fotos: Marcos Fernandes 8-3-99
Estudantes discutem a obra de Niemeyer no Ibirapuera: para o arquiteto, os desenhos a mão livre são uma forma de enxergar a criação e de as pessoas a entenderem


Capas de livros de Niemeyer, traduzidos em dez línguas, e capas de revistas: arquitetura é notícia

Se o Governo do Distrito Federal depositar os R$ 300 mil que correspondem à sua parte na parceria para a montagem da exposição Niemeyer 90 Anos, a Federação das Indústrias de Brasília (Fibra) pode ter condições de arcar com os outros R$ 280 mil. Para ter esse dinheiro, ela vai passar o chapéu entre os empresários e tudo isso tem de ser feito o mais rápido possível, para que haja tempo hábil para que a mostra esteja pronta até 21 de abril.

  O Governo do Distrito Federal se exime da culpa, e afirma que o cancelamento da exposição deve-se ao fato de que a Fibra não levantou o restante dos recursos como havia sido combinado. A mostra que vai rodar o mundo conta de centenas de painéis, livros, medalhas, desenhos, maquetes, capas de revistas nacionais e internacionais, móveis, depoimentos, fotos.

  A secretária de Cultura, Luiza Dornas, não quis falar sobre o assunto. O governo preferiu dar explicações sobre o cancelamento da exposição por meio de uma nota assinada pelo secretário de Comunicação, Weligton Moraes.

  ‘‘O GDF foi procurado pelo Instituto Lina Bo Bardi para patrocinar (...) uma exposição dos trabalhos do arquiteto (...). Os custo da instalação chegava a R$ 780 mil, mas entendimentos com a produtora reduziram os gastos para R$ 580 mil. O GDF assumiu o compromisso de contribuir com R$ 300 mil (..) a Fibra chegou até mesmo licitar os serviços para instalar a mostra, mas o trabalho de levantar os recursos necessários não logrou êxito. Por esse motivo, não está sendo possível realizar a montagem da exposição’’, afirma a nota do GDF.

  A nota ainda enfatiza que o secretário de Obras, Tadeu Filippelli, e a secretária de Cultura já comunicaram o fato a Oscar Niemeyer e reafirmaram a disposição de arcar com os R$ 300 mil referentes a sua contribuição.

  No início da tarde, o arquiteto ainda não sabia sobre o cancelamento da exposição. ‘‘Tanto Filippelli como o governador tiveram o maior empenho em fazer a exposição e concluir o eixo monumental’’ — limitou-se a dizer ao Correio, referindo ao secretário de Obras, Tadeu Filippelli, e ao governador Joaquim Roriz. Niemeyer preferiu não fazer outros comentários.

  O coordenador de Comunicação da Fibra, José Noguchi, disse que se o governo depositar os R$ 300 mil, a Federação poderá ‘‘mostrar algo concreto’’ que motive a solidariedade dos empresários para a arrecadação do dinheiro que falta. ‘‘Brasília não pode ficar sem essa exposição’’, disse Noguchi.

A EXPOSIÇÃO

  A idéia da exposição é da curadora-geral da exposição, arquiteta Cecília Scharlach. O projeto é do arquiteto Haron Cohen. E o próprio Oscar Niemeyer opinou sobre o trabalho. A exposição foi apresentada em São Paulo, ocupou 8 mil metros quadrados no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega do Parque Ibirapuera, espaço cujo autor é o próprio arquiteto.

  Em Brasília, a mostra foi projetada para ser apresentada em um espaço menor, mas com todas as peças que a compõem — em quase 5 mil metros quadrados, uma área fechada no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade — com livre ingresso.

  O primeiro contato com a exposição sobre vida e obra de Oscar Niemeyer é a apresentação sobre o autor. Desenhar é preciso é um painel criado por ele próprio, com 23 metros por 2,75 metros. É sua trajetória profissional representada por desenhos a mão livre - croquis de projetos arquitetônicos.

  Em palestras a estudantes, Niemeyer repete que o arquiteto tem que saber desenhar. Os croquis são representações artísticas dos projetos. Mas, mesmo belos, não são só objetos de contemplação. São a materialização das intenções do profissional para si mesmo. Ele precisa enxergar o produto que deseja criar. Desenha também para que as pessoas entendam seus pensamentos artísticos.

Sob protestos

‘‘Acho que a exposição sobre vida e obra de Oscar Niemeyer irá fazer muito falta para os brasilienses. Niemeyer deve ser homenageado junto com o aniversário da cidade que ele ajudou a construir. Ele não pode ficar fora da festa. Será uma lástima a exposição passear pelo mundo e não chegar a Brasília.’’

Athos Bulcão artista plástico

‘‘É um escândalo. O governo não tem noção da grandeza desta exposição. O mundo inteiro irá prestigiar a exposição sobre a vida e obra de Oscar Niemeyer e os brasilienses não? É um absurdo Brasília comemorar seus 40 anos sem a presença de Oscar Niemeyer. Brasília precisa conhecer a exposição.’’

Vera Brant empresária

‘‘O governo deveria fazer um esforço para trazer a exposição da vida e obra de Oscar Niemeyer para Brasília. A iniciativa privada também. O mundo está vibrando com a exposição e os brasilienses ainda não conhecem e correm o riso de não conhecer. É muito importante que a exposição venha para cidade, principalmente nas comemorações dos 40 anos.’’

Gilson Paranhos presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil-DF (IAB)

‘‘Ainda não conheço a exposição da vida e obra de Oscar Niemeyer que está em São Paulo. Mas acredito que a mais importante e permanente exposição são as obras arquitetônicas de Brasília. Não há necessidade de outra exposição, desde a população conserve as obras existentes na cidade.’’

Maria Elisa Costa arquiteta, filha de Lucio Costa

‘‘A exposição da vida e obra de Oscar Niemeyer é essencial para o aniversário da cidade. É lamentável não chegar até Brasília pois Oscar Niemeyer e Lucio Costa são os pais de Brasília. Outro ponto importante da exposição: ver a arquitetura como uma atividade cultural.’’

Geraldo Nogueira Batista diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília

 

Vida de pioneiro
O embaixador de Brasília

Andrea Catta Preta
Especial para o Correio
 
Kleber Lima
Murtinho: muito a fazer

Aos 80 anos, o assessor especial do ministro do Ministério da Cultura, Vladmir Murtinho, relembra sua vinda à capital em 1958.‘‘Vim para coordenar a construção da nova sede do corpo diplomático. Naquela época, muitos desejavam manter a sede no Rio, mas insisti no projeto da mudança’’.

Um dos maiores responsáveis pela construção do Palácio do Itamaraty, o ex-embaixador brasileiro no Japão e na Dinamarca conta as dificuldades encontradas ao chegar, ‘‘As pessoas riam de Brasília. Ninguém acreditava que uma cidade tão precária naquela época chegasse algum dia a dar certo’’.

Mas ele resistiu. Ficou na capital e acompanhou passo a passo a construção do Palácio. ‘‘Defendemos o projeto e arrecadamos verbas. Ainda, fizemos uma maquete para que o público a visse’’. Para ele, a cidade era perfeita desde o primeiro dia. ‘‘Antes do dia 21 de abril de 1960, Brasília era com certeza a cidade mais feliz do país. Logo vieram as críticas à cidade, mas isso passou com o tempo’’.

Em 1967, foi inaugurado com sucesso.‘‘Três dias antes da inauguração havíamos aberto o palácio para que as pessoas o conhecessem. No dia, foi feita a recepção do atual imperador do Japão’’. Essa mudança, acredita Murtinho, foi essencial para a consolidação da capital. ‘‘Durante a primeira década, a tendência dos que vinham era voltar ao Rio. Com a mudança da sede diplomática as pessoas passaram a acreditar em Brasília’’.

Pai de uma filha e avô de dois netos, o embaixador já viajou mundo afora, mas declara que a melhor cidade para se morar é a capital do Brasil. ‘‘A condição de trabalhar é maravilhosa em Brasília. Impossível de se realizar em qualquer cidade grande do mundo’’.

Hoje, com 60 anos de serviço público, Vladmir continua a participar da construção da cidade e acredita que ela ainda precisa de alguns anos para ser uma capital de verdade. ‘‘Daqui a vinte e cinco anos Brasília estará pronta como capital. Falta trazer os símbolos da cultura brasileira, como a biblioteca e o museu nacional. Estamos fazendo tudo para agilizar isso’’.

 


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