As veias abertas do Setor Comercial Sul

A vida incessante de sete dos 50 mil personagens que diariamente perambulam pelos 40 mil metros quadrados mais agitados de Brasília. Gente que não deixa o SCS por nada neste mundo

 

Marcelo Abreu (texto) Ronaldo de Oliveira (fotos)
Da equipe do Correio

Um mundo sem lei. E, até por isso, intrigante. Nesse mesmo mundo, convivem homens engravatados, mulheres de tailleur, office-boys, camelôs, aposentados, pedintes, bêbados, traficantes, travestis, prostitutas, garotos de programa, contrabandistas, batedores de carteiras... E a polícia. Há espaços para todos. Num mundo de 40 mil metros quadrados, a vida pulsa. Desregrada, marginal, drogada. Bêbada e também honesta. Louca e transgressora. Arrebatadora. Surreal.

  A vida de reminiscências do aposentado Severino. Do tempo em que era gerente de hotel... Do bêbado João, um dia abastado e hoje implorando por R$ 1 para comprar mais uma dose. Do sempre apressado office-boy, que desvenda como ninguém os becos e entranhas desse mundo sem lei.

  Do homem que viu um a um dos arranha-céus crescer. E hoje, na maioria das vezes, de chinelo, calça surrada e poucos dentes na boca, é barrado em quase todos. A vida do advogado sisudo, que briga por uma vaga nos estacionamentos. Dá mil voltas e não consegue. Perde a paciência. E xinga até Deus.

  Do dentista que toma um pingado num boteco da esquina. E reclama que seus pacientes o abandonaram. Motivo? O endereço. Não há onde estacionar e falta segurança. Do corretor de imóveis tentando vender o que, ali, ninguém quer mais comprar. Do bancário que come apressado num dos self-service abarrotado de gente. A vida do lavador de carros que sabe de cor a placa de cada um dos seus fregueses. Quando falta policial, é ele quem coloca ordem no trânsito caótico.

  A vida do homem de terno e gravata que chega num carro importado. Estaciona numa sauna freqüentada só por homens. Coloca os óculos escuros. Disfarça ao se aproximar da porta de entrada. E entra, rápida e desconfiadamente. Naquele lugar também existem pecados inconfessáveis.

  A vida da pernambucana que há quase três décadas pede esmolas no mesmo lugar. ‘‘Dia bom é dia de pagamento’’ comemora ela. A vida do índio pataxó que vende gamelas numa esquina do Idhab. E olha gente desesperada, em pé e debaixo de sol, aguardando a vez para conseguir o lote. O índio lamenta: ‘‘Coitado desse pessoal...’’

  A vida pária do travesti Milena — que um dia foi Jurandir. Hoje, de silicone, minissaia, sapato alto e batom, ganha a vida vendendo o corpo. As noites naquele lugar já lhe renderam facadas e tiros. Mas nem por isso desiste. ‘‘O Setor Comercial é a cara de Brasília’’, reflete ela, jogando os cabelos pintados de loiros.

  Milena sabe o que diz. Se Brasília tem cara, forma e cheiro, talvez ali seja sua melhor tradução. E todas essas vidas — todas elas — se juntam no mesmo lugar. Num mundo de edifícios antigos, persianas enferrujadas, becos e esquinas — sim, ali existem esquinas — a capital da República mostra sua cara.   Qual o nome desse mundo? Setor Comercial Sul.

VENDEDOR DE GAMELAS

Atevaldo, o índio

‘‘Pra mim é um lugar misterioso. Mas eu gosto daqui’’

  Num mundo por onde circulam diariamente cerca de 50 mil pessoas, o índio pataxó Atevaldo Rezende da Silva, de 33 anos, vende gamelas. Deixou Porto Seguro (BA)) — lugar onde vive parte de sua tribo — há quase duas décadas. Só volta ali para pegar material para confeccionar seus produtos.

  Em Brasília, o ponto escolhido do pataxó foi o SCS. Por quê? ‘‘Por aqui tem gente passando’’, responde. Explicação plausível. Atevaldo gosta de gente andando. ‘‘Na tribo, é assim. O povo não fica parado, não. O povo anda...’’

  Talvez por isso tenha escolhido uma das esquinas mais movimentadas do SCS — a esquina do Instituto de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Idhab). Leia-se antiga Shis. Esquina? Sim. Engana-se quem acha que a cidade de Oscar Niemeyer e Lucio Costa não tem esquina. Precisa ir ao SCS e desvendá-las. É um trabalho que exige dedicação. Algumas são quase imperceptíveis.

  Lá, na esquina do Idhab, as pessoas andam. Reclamam da vida. E se espremem em filas atrás do lote. O índio não entende por que o homem branco tem que lutar por um ‘‘pedaço de chão’’. E reflete: ‘‘Esse mundo é tão grande...’’

  Atevaldo olha aquelas pessoas. Pelo menos há três anos tem feito isso todos os dias. De vez em quando até conversa com elas. Ouve seus lamentos. Fala de sua tribo. Conta histórias. Naquele mundo sem lei ainda se fala de vida.

  Quando não tem com que conversar, o rapaz senta-se no chão e lustra suas gamelas. Pensa na luta que aquela gente branca tem. ‘‘É o pessoal da pobreza atrás desse lote. É todo dia. Parece que não tem fim nunca. Civilização é isso?’’

  O índio pataxó chega ali, na esquina do Idhab, às 7h. Vem a pé, puxando um carrinho de supermercado, da 703 Sul. É lá que mora num quarto alugado. ‘‘Só vou embora quase à noitinha. Aqui é o melhor lugar pra mostrar a mercadoria’’, comemora. Quando tem sorte, consegue vender até três gamelas por dia. ‘‘Faço até por quinze reais cada uma.’’ SCS? ‘‘Pra mim, é um lugar misterioso. Mas eu gosto daqui.’’

REMINISCÊNCIAS DO APOSENTADO

Severino, o aposentado
‘‘Se eu ficar em casa vou me entristecer. Aqui, esqueço das tristezas’’

  Um dia, ele foi, como mesmo se define, ‘‘uma pessoa importante’’. Hoje, é um homem que conta histórias num banquinho de esquina do SCS. O cearense Severino Carneiro dos Santos, de 50 anos, aposentado por invalidez, é o retrato do passado. ‘‘Fui copeiro e subgerente do Hotel Nacional’’, orgulha-se.

  Severino bebeu muito. Bebeu demais. Perdeu-se da vida. Perdeu-se dele mesmo. ‘‘A bebida me fez muito estrago, menino’’, lamenta. Morador do Gama, todos os dias o cearense vem para o SCS. Chega ali por volta das 8h. Fazer o quê? ‘‘Venho passear, andar. Me distrair. Gosto de ver o movimento’’, diz o homem separado da mulher, dois filhos, dois netos.

  Lá, junto com outros aposentados muito mais velhos que ele, Severino observa o vaivém daquela gente sem tempo. Conversa sobre política, salário mínimo e futebol. Indigna-se também com a fila do Idhab: ‘‘Graças a Deus, não preciso ficar ali’’. E ri, lembrando de um tempo que não existe mais: ‘‘A vida já foi boa pra mim, menino...’’

  A mesma vida que lhe deu sabores e alegrias, hoje o faz tomar, em pé, mais uma dose de cachaça num boteco do SCS. ‘‘É só pra esquentar o dia’’, justifica. Severino é assim. A vida lhe fez assim. ‘‘Se eu ficar em casa, vou me entristecer. Aqui, converso com um, com outro. Esqueço das tristezas. Parece que a vida não morre aqui’’, desabafa, emocionado.

  À tarde, depois das 17h, ele pega o ônibus na Rodoviária e volta para o Gama. ‘‘Só não venho aqui no fim semana.’’ Por quê? ‘‘Oxente, porque não tem ninguém pra conversar...’’

O SENHOR DO TEMPO

Geraldo, o bombeiro hidráulico

‘‘Quando eu cheguei, depois das quatro da tarde, não ficava uma viv‘alma’’

  Ele viu quase tudo ali ser construído. Há 35 anos, o SCS era quase deserto. ‘‘Não tinha nadinha. Só as óticas Luxor’’, diz, ele, olhando um edifício gigante. E lembra, sorrindo: ‘‘Quando eu cheguei, depois das quatro horas da tarde, não ficava uma viv’alma aqui. Você podia andar pelado’’.

  O tempo passou. Os edifícios foram erguidos e o homem que viu tudo crescer quase não pode entrar neles. Usa chinela, calça surrada e tem poucos dentes na boca. Os seguranças novos no lugar geralmente lhe barram. Mineiro de Mariana, Geraldo Claro Ferreira, de 75 anos, é testemunha ocular da transformação do local.

  Com o passar dos anos, virou bombeiro hidráulico de várias salas dos edifícios. Era recomendado pelo próprio condomínio. Conquistou a confiança de alguns dos ‘‘doutores advogados’’. E se envaidece: ‘‘Tomei muito cafezinho com eles’’.

  Hoje, divorciado, Geraldo mora no Jardim Ingá (GO), Planta mandioca e cria galinha. Mas todos dos dias — ‘‘só não quando chove’’ — desce para o SCS. ‘‘Não pago passagem mesmo...’’.

  Ele anda por todas as quadras. Cumprimenta quem ainda o conhece e vai para casa com a sensação de missão cumprida. Com os olhos marejados, diz emocionado, do alto de um prédio: ‘‘Aqui é o lugar que mais gosto em Brasília’’.

O ANDARILHO E O LAVADOR DE CARRO

João, o lavador de carros
João, o lavador de carro
‘‘Só vou embora daqui quando Deus não me deixar mais trabalhar’’

  Edmildo Damasceno resolveu não contar mais os quilômetros que anda por dia. Cansa, só de pensar. ‘‘Acho que dá uns dez’’, calcula. Há uma década, ele percorre quadras, esquinas e labirintos do SCS. Hoje, aos 23 anos, casado, três filhos, orgulha-se de ser office-boy de um escritório de advocacia: ‘‘Conheço tudo aqui. Cada canto, cada pedaço’’. Ele sabe o que diz.

  ‘‘Tenho uma ligação muito forte com esse lugar. Cresci aqui. Sobrevivo daqui’’, admite. Edmildo chega ao SCS às 7h30. Vai embora às 18h. Pasta na mão, documentos importantes, lá vai ele. Anda a pé, sobe escada, entra no elevador. Conversa com outros boys. Acha a vida realmente boa. ‘‘Viver é a melhor coisa...’’ Até em férias, o office-boy vai ao SCS. ‘‘Venho passear e rever os amigos. Sinto falta quando passo muito tempo longe daqui. Parece doença.’’

  O goiano João Orcelino dos Santos, de 50 anos, seis filhos, trabalha no SCS há mais de duas décadas. Sempre no mesmo ofício: lavando carros. É o mais velho lavador do lugar. Sabe de cor a placa dos clientes. E revela, envaidecido, a forma como executa a profissão: ‘‘Lavo o carro de muito doutor. Só gente importante. Eles me entregam chave, mas nunca dirigi nenhum carro.

  Quando falta policial, quem organiza o trânsito é ele. Joga-se no meio da rua e gesticula. O lavador vira autoridade. ‘‘Só vou embora daqui quando Deus não me deixar mais trabalhar.’’

A PEDINTE DE TRÊS DÉCADAS

Cícera, a pedinte
‘‘Dia bom mesmo é dia de pagamento. Aí, o povo dá mais’’

  Sempre no mesmo local. Isso há quase 30 anos. A pernambucana da cidadezinha de Floresta, Cícera Anunciada da Conceição, de 87 anos, acostumou-se a pedir esmola. Viúva — o marido morreu em 1970 — e um único filho que se perdeu ‘‘nesse mundo de meu Deus’’, Cícera Anunciada é uma mulher sozinha.

  Mora num quarto de fundo que aluga numa casa em Samambaia. Seus únicos ‘‘amigos’’ — gente que ela conhece quando estende a mão — são pessoas que vão e voltam todos os dias ao SCS. Gente que nem sabe seu nome. Muito menos sua história.

  Às 10h, ela chega à quadra 4, uma das mais movimentadas. Senta-se num cantinho. Coloca só um papelão para forrá-lo. Encosta-se numa coluna. E levanta as mãos. O ofício é árduo. Quando dá sorte, leva para casa algo em torno de R$ 20. ‘‘Dia bom mesmo é dia de pagamento. Aí, o povo dá mais.’’ Anunciada espera ansiosa o quinto dia útil do mês. ‘‘Eu peço. Tem quem me dê.’’

  Ali, naquele cantinho, ela conta história. Às vezes para ela mesma. Revive o passado que só existe na sua cabeça. Até ri. E ainda acredita na vida. ‘‘Meu filho, se eu não acreditasse nem estava mais aqui. Venço ela (a vida) porque pelejo muito.’’

  A tarde cai. As pessoas começam a deixar o SCS. Anunciada sabe que chegou a hora de ir. Guarda o pedaço de papelão onde senta, coloca o dinheirinho que juntou num saco plástico e levanta. A caminhada será longa. No outro dia, começará tudo outra vez.

MILENA, UM DIA JURANDIR

Milena, o travesti
‘‘Aqui é o nosso lugar. Brasília acontece aqui’’

  Às luzes se acendem. É noite. O SCS se esvazia. Aos poucos chegam os novos personagens. São prostitutas, travestis, traficantes, bêbados. Um bando de gente que provavelmente não tem mais nada a perder na vida. Cada um segue para territórios previamente determinados. Elas — as prostitutas, por exemplo — fazem ponto numa calçada ao lado do Conic. Os travestis ficam no SCS, próximo ao edifício da Telebrasília. Somam-se pelo menos uns 60. De todos os tipos e tamanhos de silicone. A convivência entre eles nem sempre é pacífica.

  São 20h30. A loira Milena — aquela que um dia foi Jurandir — chega para mais uma noite de trabalho. Começa a batalha.

  ‘‘No carro, se for rapidinho, cobro R$ 30 pelo programa. Se for pro motel é mais caro. No mínimo R$ 50’’, avisa ela. Mas a tabela dos serviços pode aumentar de acordo com a preferência do cliente. ‘‘Geralmente quem me procura é homem casado e bem-sucedido na vida’’, entrega.

  Nos 11 anos que faz ponto ali, Milena, que diz ter 26 anos, já apanhou. Levou tiro. Foi cortada. Correu da polícia. ‘‘É a lei da sobrevivência no Setor Comercial’’, simplifica. ‘‘Os travestis tentam ficar no centro de Taguatinga e no Núcleo Bandeirante, mas não ganham dinheiro. Aqui é o nosso lugar. Brasília acontece aqui’’, vibra.

  5h30. Milena segue para a Rodoviária. Precisa pegar o ônibus que a levará de volta a Ceilândia. É hora de deixar o SCS. Ela está cansada. Exausta. O batom vermelho nem existe mais na boca. Daqui a pouco, é hora de uma outra gente circular pelas ruas e becos do setor. Milena dorme profundamente.

  É a hora e vez do lavador de carros, do office-boy, de dona Anunciada, do advogado sisudo, da moça de tailleur, do velho que viu cada arranha-céu ser construído, do homem que vai para a sauna. Vai começar tudo de novo.

  Sempre. Todos os dias. A vida ali, naquele mundo sem lei, não pára.



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