FALTAM 22 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

O império do verde

Em Brasília, o consumo de flores e plantas é 20% maior que em qualquer cidade do país

 

Flávia Filipini
Da equipe do Correio

Nehil Hamilton
Cresce na cidade a procura por paisagistas profissionais: grande parte das plantas ornamentais e das flores vem de fora de Brasília



No início, Brasília precisou de criar uma guarda com 84 homens para conter os furtos de plantas nos canteiros durante as madrugadas. Era o início da década de 60. ‘‘Esverdeávamos a cidade de dia, mas os arbustos sumiam à noite. Os moradores queriam o verde, mas não tinham onde comprar. Por isso, tivemos que criar a guarda para evitar os furtos e proibir as pessoas de pisarem na grama’’, lembra um dos paisagistas pioneiros da cidade Shoithi Hsano. Hoje, 40 anos depois, a ilegalidade foi substituída por um mercado bastante fertilizado: o do paisagismo.

  Na cidade das grandes áreas verdes, a indústria do paisagismo não pára de crescer. A criação, há três anos, de um curso de extensão nessa área na Universidade de Brasília (UnB) está fazendo brotar um número cada vez maior de profissionais paisagista na cidade. A maior oferta está refletindo na procura, com o aumento do interesse dos moradores por jardins bens feitos.

  Trabalho é o que não falta para esse pessoal. A Associação de Paisagistas de Brasília estima que apenas 30% das casas construídas nos lagos têm hoje um jardim elaborado por profissionais. A associação é um exemplo do aquecimento recente desse setor em Brasília. A entidade foi formada em uma das turmas do curso de extensão. Em doze meses de existência, o número de filiados saltou de 60 para 120. ‘‘A divulgação do nosso trabalho está realmente aumentando a procura pelo paisagismo. Na prática, um profissional está propagando o outro com a beleza de seu trabalho’’, diz o paisagista Nil de Souza, presidente da associação.

BURITI DO BREJO

  Os furtos das plantas prova que o interesse da população brasiliense pelo verde não é propriamente uma novidade. E começou exatamente durante o processo de ajardinamento de Brasília, no início dos anos 60, quando os primeiros paisagistas faziam o transplante de buritis dos brejos do Gama para a frente do Palácio do Itamaraty e coordenavam a forração de grama na Esplanada do Ministério, lembra Shoithi Hsano, que foi funcionário da Novacap e um dos responsáveis pelo primeiro jardim do Palácio da Alvorada.

  Hoje, esse interesse da população pelo verde pode ser explicado por vários fatores: a alta renda per capita de seus moradores — é a mais alta do país —; a maior formação escolar de seus habitantes; e o próprio projeto arquitetônico da cidade, que concilia concreto com jardins. ‘‘Só o fato de a cidade ser cheia de canteiros floridos é um ponto favorável. As pessoas se sentem atraídas e querem levar para dentro de casa todas aquelas cores. Quem tem mais dinheiro e espaço termina optando por um jardim profissional’’, comenta Charles Tinen, dono da Transplantas Garden Center, empresa parceira no Centro-Oeste do maior viveiro da América Latina, a Holambra.

  Tinen acaba de receber da Fundação Getúlio Vargas um estudo que encomendou sobre esse mercado em Brasília. O documento confirmou em números o que Tinem e a Holambra já percebiam: ‘‘Os moradores de Brasília consomem mais 20% de flores e plantas que os habitantes de qualquer outro estado’’, divulga o empresário.

  A Transplantas atende a 80% do mercado do DF, incluindo as que são vendidas em praticamente todos os supermercados e hipermercados da cidade. São vendidos 27 mil dúzias de flores por semana — quantidade que chega a ser multiplicada por cinco no Dia das Mães. Pelos cálculos do empresário, enquanto esse setor vem crescendo no Brasil 20% ao ano desde de 1998, em Brasília essa evolução anual é de 30%. Para satisfazer a toda esse interesse por verde, a Transplantas vai inaugurar em julho um shopping temático na EPTG (Estrada Parque Taguatinga Guará). ‘‘Com esse shopping vamos favorecer ainda mais o desenvolvimento desse setor no Centro-Oeste’’, diz o empresário.

  O shopping rural terá 41 lojas — como floriculturas, estabelecimentos agrícolas, de embalagens etc — e 40 salas para escritórios de paisagistas, arquitetos, agrônomos... O espaço contará ainda com uma churrascaria, praça de alimentação e um minizoológico, com bichos apreendidos pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente). Para a Transplantas, o shopping é a oportunidade de diversificar seus negócios para a área de varejo. ‘‘Vamos competir também com nossos clientes donos de floriculturas, que estão com uma grande margem de lucro. Com nosso poder de barganha, podemos oferecer preços mais adequados e, assim, obrigá-los a fazer o mesmo’’

  Flor é um produto caro em Brasília porque é importado de São Paulo e de fora do país. O Distrito Federal produz apenas de 3% a 5% das plantas ornamentais e flores que consome. Os paisagistas, no entanto, reclamam de um certo mito em relação ao preço de um jardim. O custo de contratar um paisagista para projetar e executar um jardim em torno de 800 metros quadrados fica entre R$ 10 mil e R$ 12 mil. ‘‘É mais barato do que fazer um jardim de qualquer forma e depois ter que recuperá-lo’’, diz Nil de Souza. Segundo ele, esses projetos têm em média uma garantia de três meses. ‘‘E ainda ensinamos o caseiro ou o jardineiro a fazer a manutenção do jardim’’.

  Mas Souza também faz uma advertência. O aumento de profissionais nessa área não significa necessariamente qualidade garantida. ‘‘Temos muita gente boa e muita gente ruim também. O consumidor precisa ser esperto’’, orienta. Souza recomenda que os novos clientes peçam sempre referência do paisagista escolhido. ‘‘E não adianta olhar fotos. Tem quer visitar trabalhos anteriores, ver se o antigo cliente está satisfeito ou pedir referências à associação.’’


Adubo no mercado

  De olho no grande consumo de flores e plantas ornamentais, o Governo do Distrito Federal e os produtores locais trabalham em parceria para tentar transformar o perfil desse mercado no DF. A idéia é diminuir as importações, que hoje correspondem a perto de a 98% do consumo, a até 55%. Para isso, 40% da demanda seria produzida no DF, o que geraria empregos. A meta faz parte do Programa de Produção e Distribuição de Flores e Plantas Ornamentais, o Pólo Flor, que foi lançado pelo governo ano passado, mas só agora está saindo do papel.

  Entre 22 de abril e 7 de maio — dentro das comemorações dos 40 anos de Brasília — o Pólo Flor será uma vitrine viva no Parque de Exposição da Granja do Torto. Segundo os organizadores, será a primeira exposição do país que ensinará os visitantes a produzir flores e plantas. Instrutores da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF), representantes da Secretaria de Agricultura e de grandes fornecedores do país vão ensinar algumas técnicas de plantio e repassar informações de mercado. O governo promete abrir uma linha de crédito especial.

  Mesmo assim, a tarefa não será fácil. Brasília tem como atrativos o alto consumo — o que pode ser traduzido em retorno quase que garantido para o consumidor. ‘‘E o clima não é um problema como muita gente pensa. Aqui não temos geada e a baixa umidade na seca pode ser contornada com a produção em estufas’’, lembra o técnico da Emater Wagner Ribeiro, também diretor da associação dos produtores locais (Aproflor).

  Em um levantamento feito pelo governo entre os principais atacadistas do DF e Entorno se concluiu que a comercialização nessa região é de 90 mil unidades por dia, entre vasos de plantas ornamentais e pacotes de flores de corte. Acredita-se que a produção local seja de apenas 1.800 unidades/dia. Fazer com esse número chegue a 36 mil unidades por dia (40% do mercado local) é quase um sonho. O próprio Ribeiro reconhece as dificuldades. Ele estima que um produtor necessita de R$ 80 mil para começar suas atividades nesse ramo. O negócio é caro porque até para produzir as flores e plantas no DF, os interessados precisam importar — da muda ao fertilizante. ‘‘Só com muito incentivo governamental, os produtores do DF conseguiriam equilibrar a batalha capitalista’’ (F.F.).

 

Personagem do dia
Amor mais que perfeito

Juliana Monteiro
Especial para o Correio

Zuleika de Souza 17.11.98
Hugo Rodas: ‘‘Encontrar o sol’’

Em 1975, Hugo Renato Rodas Giusto chegava a Brasília: ‘‘Quando olhei a cidade pela janela do avião pensei: ‘É isso!’’’. Hugo Rodas nasceu há 60 anos em uma família modesta no Uruguai. Filho único, era tratado como um investimento. Fazia aulas de piano, inglês, francês e italiano. Mas a energia do uruguaio sempre esteve voltada para a arte e foi a arte que o trouxe para Brasília, depois de ter passado temporada em Salvador e São Paulo. ‘‘Eu não acreditava que ia morar em uma cidade que tinha 15 anos’’, diz divertido. Mas o motivo que o tirou de sua terra natal o torna melancólico: ‘‘Vim para o Brasil por amor. Para afastar-me de uma pessoa que eu amava.’’

São as paixões que ditam as regras na vida do ator, diretor, dramaturgo, Hugo Rodas. ‘‘Sou indesquitável de qualquer sonho meu. Isso inclui a cidade. Brasília se encaixou em um sonho urbano que sempre tive. Queria uma cidade em que as desigualdades sociais não ferissem os olhos e Brasília tinha isso no projeto inicial’’, sintetiza.

Já são mais de 70 espetáculos e muitos prêmios conquistados na cidade. Mas Hugo não pensa no futuro. Talvez até deixe a cidade se seu ‘‘ciclo se fechar’’. Mas confessa: ‘‘Não sou brasileiro mas brasiliense, eu sou.’’

Por que veio para Brasília?

‘‘Para fazer arte a convite de um amigo. Encontrar Brasília foi como encontrar o sol. Brasília me deu vida.’’

O que mais gosta aqui?

‘‘Do espaço, da vida urbana que se leva aqui.’’

O que mais detesta?

‘‘A mediocridade com que tratam a cidade. Ela não merece. Detesto que ela seja confundida com uma cidade de poder.’’

O que mais falta à cidade?

‘‘Para mim, não falta nada.’’

Qual o primeiro lugar onde você levaria um turista?

‘‘Minha casa.’’

O dia ou a noite de Brasília?

‘‘O dia. A claridade de Brasília me deixou diurno.’’

De onde a vista de Brasília é mais bonita?

‘‘Da orla.’’

O que você responde quando alguém fala mal de Brasília?

‘‘Não respondo. Eu detesto que falem mal da cidade.’’


  • LEIA AMANHÃ — O primeiro cirurgião, o primeiro médico e a primeira enfermeira de Brasília contam histórias de pionerismo


  • © Copyright CorreioWeb. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
    em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do CorreioWeb.