No início, Brasília precisou de criar uma guarda com 84 homens para
conter os furtos de plantas nos canteiros durante as madrugadas. Era
o início da década de 60. ‘‘Esverdeávamos a cidade de dia, mas os arbustos
sumiam à noite. Os moradores queriam o verde, mas não tinham onde comprar.
Por isso, tivemos que criar a guarda para evitar os furtos e proibir
as pessoas de pisarem na grama’’, lembra um dos paisagistas pioneiros
da cidade Shoithi Hsano. Hoje, 40 anos depois, a ilegalidade foi substituída
por um mercado bastante fertilizado: o do paisagismo.
Na cidade das grandes áreas verdes, a indústria do paisagismo não
pára de crescer. A criação, há três anos, de um curso de extensão nessa
área na Universidade de Brasília (UnB) está fazendo brotar um número
cada vez maior de profissionais paisagista na cidade. A maior oferta
está refletindo na procura, com o aumento do interesse dos moradores
por jardins bens feitos.
Trabalho é o que não falta para esse pessoal. A Associação de Paisagistas
de Brasília estima que apenas 30% das casas construídas nos lagos têm
hoje um jardim elaborado por profissionais. A associação é um exemplo
do aquecimento recente desse setor em Brasília. A entidade foi formada
em uma das turmas do curso de extensão. Em doze meses de existência,
o número de filiados saltou de 60 para 120. ‘‘A divulgação do nosso
trabalho está realmente aumentando a procura pelo paisagismo. Na prática,
um profissional está propagando o outro com a beleza de seu trabalho’’,
diz o paisagista Nil de Souza, presidente da associação.
BURITI DO BREJO
Os furtos das plantas prova que o interesse da população brasiliense
pelo verde não é propriamente uma novidade. E começou exatamente durante
o processo de ajardinamento de Brasília, no início dos anos 60, quando
os primeiros paisagistas faziam o transplante de buritis dos brejos
do Gama para a frente do Palácio do Itamaraty e coordenavam a forração
de grama na Esplanada do Ministério, lembra Shoithi Hsano, que foi funcionário
da Novacap e um dos responsáveis pelo primeiro jardim do Palácio da
Alvorada.
Hoje, esse interesse da população pelo verde pode ser explicado por
vários fatores: a alta renda per capita de seus moradores — é a mais
alta do país —; a maior formação escolar de seus habitantes; e o próprio
projeto arquitetônico da cidade, que concilia concreto com jardins.
‘‘Só o fato de a cidade ser cheia de canteiros floridos é um ponto favorável.
As pessoas se sentem atraídas e querem levar para dentro de casa todas
aquelas cores. Quem tem mais dinheiro e espaço termina optando por um
jardim profissional’’, comenta Charles Tinen, dono da Transplantas Garden
Center, empresa parceira no Centro-Oeste do maior viveiro da América
Latina, a Holambra.
Tinen acaba de receber da Fundação Getúlio Vargas um estudo que encomendou
sobre esse mercado em Brasília. O documento confirmou em números o que
Tinem e a Holambra já percebiam: ‘‘Os moradores de Brasília consomem
mais 20% de flores e plantas que os habitantes de qualquer outro estado’’,
divulga o empresário.
A Transplantas atende a 80% do mercado do DF, incluindo as que são
vendidas em praticamente todos os supermercados e hipermercados da cidade.
São vendidos 27 mil dúzias de flores por semana — quantidade que chega
a ser multiplicada por cinco no Dia das Mães. Pelos cálculos do empresário,
enquanto esse setor vem crescendo no Brasil 20% ao ano desde de 1998,
em Brasília essa evolução anual é de 30%. Para satisfazer a toda esse
interesse por verde, a Transplantas vai inaugurar em julho um shopping
temático na EPTG (Estrada Parque Taguatinga Guará). ‘‘Com esse shopping
vamos favorecer ainda mais o desenvolvimento desse setor no Centro-Oeste’’,
diz o empresário.
O shopping rural terá 41 lojas — como floriculturas, estabelecimentos
agrícolas, de embalagens etc — e 40 salas para escritórios de paisagistas,
arquitetos, agrônomos... O espaço contará ainda com uma churrascaria,
praça de alimentação e um minizoológico, com bichos apreendidos pelo
Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente). Para a Transplantas,
o shopping é a oportunidade de diversificar seus negócios para a área
de varejo. ‘‘Vamos competir também com nossos clientes donos de floriculturas,
que estão com uma grande margem de lucro. Com nosso poder de barganha,
podemos oferecer preços mais adequados e, assim, obrigá-los a fazer
o mesmo’’
Flor é um produto caro em Brasília porque é importado de São Paulo
e de fora do país. O Distrito Federal produz apenas de 3% a 5% das plantas
ornamentais e flores que consome. Os paisagistas, no entanto, reclamam
de um certo mito em relação ao preço de um jardim. O custo de contratar
um paisagista para projetar e executar um jardim em torno de 800 metros
quadrados fica entre R$ 10 mil e R$ 12 mil. ‘‘É mais barato do que fazer
um jardim de qualquer forma e depois ter que recuperá-lo’’, diz Nil
de Souza. Segundo ele, esses projetos têm em média uma garantia de três
meses. ‘‘E ainda ensinamos o caseiro ou o jardineiro a fazer a manutenção
do jardim’’.
Mas Souza também faz uma advertência. O aumento de profissionais
nessa área não significa necessariamente qualidade garantida. ‘‘Temos
muita gente boa e muita gente ruim também. O consumidor precisa ser
esperto’’, orienta. Souza recomenda que os novos clientes peçam sempre
referência do paisagista escolhido. ‘‘E não adianta olhar fotos. Tem
quer visitar trabalhos anteriores, ver se o antigo cliente está satisfeito
ou pedir referências à associação.’’
De olho no grande consumo de flores e plantas ornamentais,
o Governo do Distrito Federal e os produtores locais trabalham em parceria
para tentar transformar o perfil desse mercado no DF. A idéia é diminuir
as importações, que hoje correspondem a perto de a 98% do consumo, a
até 55%. Para isso, 40% da demanda seria produzida no DF, o que geraria
empregos. A meta faz parte do Programa de Produção e Distribuição de
Flores e Plantas Ornamentais, o Pólo Flor, que foi lançado pelo governo
ano passado, mas só agora está saindo do papel.
Entre 22 de abril e 7 de maio — dentro das comemorações dos 40 anos
de Brasília — o Pólo Flor será uma vitrine viva no Parque de Exposição
da Granja do Torto. Segundo os organizadores, será a primeira exposição
do país que ensinará os visitantes a produzir flores e plantas. Instrutores
da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF), representantes
da Secretaria de Agricultura e de grandes fornecedores do país vão ensinar
algumas técnicas de plantio e repassar informações de mercado. O governo
promete abrir uma linha de crédito especial.
Mesmo assim, a tarefa não será fácil. Brasília tem como atrativos
o alto consumo — o que pode ser traduzido em retorno quase que garantido
para o consumidor. ‘‘E o clima não é um problema como muita gente pensa.
Aqui não temos geada e a baixa umidade na seca pode ser contornada com
a produção em estufas’’, lembra o técnico da Emater Wagner Ribeiro,
também diretor da associação dos produtores locais (Aproflor).
Em um levantamento feito pelo governo entre os principais atacadistas
do DF e Entorno se concluiu que a comercialização nessa região é de
90 mil unidades por dia, entre vasos de plantas ornamentais e pacotes
de flores de corte. Acredita-se que a produção local seja de apenas
1.800 unidades/dia. Fazer com esse número chegue a 36 mil unidades por
dia (40% do mercado local) é quase um sonho. O próprio Ribeiro reconhece
as dificuldades. Ele estima que um produtor necessita de R$ 80 mil para
começar suas atividades nesse ramo. O negócio é caro porque até para
produzir as flores e plantas no DF, os interessados precisam importar
— da muda ao fertilizante. ‘‘Só com muito incentivo governamental, os
produtores do DF conseguiriam equilibrar a batalha capitalista’’ (F.F.).