Artigo

Brasília: expansão com desafios para o século XXI

‘‘Hoje, os espaços e terras para novas localizações e implantações, que não agridam o meio ambiente, começam a escassear’’

Aldo Paviani

  Para alguns, parecerá questão bizantina ou perda de tempo debater se Brasília é planejada ou se a capital é composta pelo somatório do Plano Piloto de Brasília com as cidades do DF, ou ainda, se a cidade pode ser classificada como metrópole. Abaixo, se discutirão estas questões.

  Ao tempo que Brasília possuía prefeito, a cidade tinha órgãos de controle e acompanhamento dos planejadores. Assim, a fama de ‘‘cidade planejada’’ se manteve como um mito no Brasil e no exterior. Nos anos 70, deu-se a expansão periférica, nutrida com a abertura de novos espaços urbanos (conhecidos como ‘‘cidades-satélites’’) e com a exploração de antigas terras agrícolas em Goiás, travestidas de loteamentos urbanos, sobretudo em Luziânia. O Plano Piloto de Brasília continuou preservado em suas grandes linhas, com a centrifugação dos favelados e habitantes dos canteiros de obras para as cidades-satélites. O processo que se iniciou com Taguatinga, em 1958, antes mesmo do Plano Piloto ser inaugurado, não mais se estancou. Surgiram Gama, Sobradinho e anexos nas antigas cidades de Planaltina e Brazlândia. E a cidade expandiu-se com outros assentos urbanos. Nos anos 70, 80 e 90, banalizaram-se as transferências de população para pontos determinados do DF, sendo consolidado um povoamento esparso.

  Chegamos ao ano 2000 com uma Brasília complexa, totalmente desfigurada social e urbanisticamente em relação ao imaginário dos fundadores (JK, Lúcio Costa, Niemeyer, Israel Pinheiro e outros). O Plano Piloto de Brasília foi projetado para coincidir com a capital federal, uma cidade com limites rígidos, setorizada quanto à localização de atividades, com um traçado urbano com vias para tráfego fluente e uma soberba reserva de terra para usos futuros ou simplesmente para abrigar áreas verdes. Hoje, os espaços e terras para novas localizações e implantações, que não agridam o meio ambiente, começam a escassear. Assim, parece oportuno que se pense em algumas ações voltadas para a cidade no século XXI. Nunca poderão ser ações isoladas, ao contrário, deverão ser tomadas em conjunto, com sentido de totalidade sócio-espacial. Igualmente, não poderão tardar, sob pena de não se ter como estancar o processo de expansão indesejável, por ser excludente e perverso para os empobrecidos. Este é o verdadeiro desafio.

  Ao se descentralizarem as atividades, sobretudo as atividades novas, nos setores industriais e de serviços, deve-se dispor de terra em pontos cuja localização facilite o acesso dos moradores dos assentamentos periféricos, hoje com uma única função: a de moradia. Com isto, se está propugnando não mais localizar atividades novas no Plano Piloto de Brasília. A descentralização das escolas, inclusive das universidades, das indústrias e serviços, possui vantagens como: as atividades estarão mais próximas da população, evitará congestionamento de tráfego, economizará horas perdidas em meios de transporte, reduzirá gastos com combustíveis, poupará os trabalhadores de desgaste físico e mental, sobretudo dos que se deslocam de grandes distâncias para trabalhar ou procurar serviços no Plano Piloto.

  Por fim, retomando as questões iniciais: a) Brasília ‘‘é cidade planejada?’’ — Poderia ter resposta afirmativa, nos primórdios da cidade. Hoje, não, pois, à medida que os ‘‘assentamentos semi-urbanizados’’ foram implantados, o incrementalismo das ações fragmentadas denota a falta de planejamento, sobretudo se assumirmos a tese de planejamento globalizado, com visão de conjunto em que, ao traçado urbanístico, se agreguem os elementos de ordem sócio-ambiental, ausentes em quatro quintos da cidade; b) Se Brasília é o conjunto urbano do DF?: responde-se afirmativamente. A cidade complexa é composta pelo Plano Piloto de Brasília e pelos demais núcleos urbanos (cidades-satélites); c) Se Brasília é metrópole? Não há dúvida alguma, a cidade tem ‘‘massa populacional’’, ‘‘complexidade funcional’’ e ‘‘inter-relações regionais’’ que a incluem entre as grandes cidades brasileiras. Ela é uma verdadeira metrópole polinucleada ou metrópole terciária/quaternária como a definimos há alguns anos. Mas com problemas desafiadores para o século XXI.

( * ) Geógrafo e professor da UnB, Organizador da obra Brasília - Gestão Urbana: Conflitos e Cidadania, Ed. UnB 1999.



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