FALTAM 21 DIAS PARA BRASÍLIA COMPLETAR 40 ANOS

Pioneiros da cura

Aventuras de médicos, enfermeira e parteira da capital em construção

 

Luiz Roberto Magalhães
Da equipe do Correio

Anderson Schneider

Primeiro médico de Brasília, Edson Porto gosta de pintar as suas lembranças

Em 1957, três anos antes da inauguração da nova capital, um surto de diarréia se abateu sobre os operários da Novacap. Preocupado — e notando que os comprimidos de enteroviofórmio (remédio usado na época contra a doença) estavam demorando para chegar do Hospital Rassi, de Goiânia, — o médico Edson Porto tratou de pegar um jipe e ir comprar o comprimido em Luziânia.

  Na farmácia da cidade, soube que alguém havia passado por lá e levado todo o estoque do medicamento. Quando a remessa de Goiânia finalmente chegou, o número de doentes já era bem menor. Estranhando a cura repentina, o doutor Edson resolveu investigar o que acontecera. E descobriu uma história fantástica.

  Assim que os operários começaram a se queixar da doença, o cozinheiro do SAPS (Serviço de Alimentação da Previdência Social), um italiano chamado Vítor, cujo sobrenome o doutor Edson não se recorda, o procurou. Ele queria saber como se tratava a tal doença.

  Com a resposta decorada, Vítor viajou a Luziânia e comprou o medicamento, e o jogou dentro das panelas em que preparava o feijão dos operários. Estava resolvido o problema. ‘‘Ele foi o primeiro sanitarista de Brasília’’, brinca Edson Porto, com um largo sorriso. A história é apenas uma das lembranças que ele carrega na prodigiosa memória de pioneiro.

  Aos 68 anos, casado, pai de cinco filhos, avô de sete netos, o médico Edson Porto é uma das lendas de Brasília. Nascido na cidade mineira de Araguari, formado em medicina no Rio de Janeiro, ele chegou em 4 de dezembro de 1956 para fazer parte da história da cidade.

  Nesse dia, em meio à aspereza do cerrado e contaminado pela poeira vermelha que se tornaria uma das marcas registradas da nova capital, o pediatra Edson Porto abraçou definitivamente o desafio de cuidar dos operários. Atendendo em uma pequena casinha de madeira, instalada próxima ao galpão do acampamento da Novacap, ele inaugurou a medicina na capital.

  ‘‘Assim que as obras começaram, o então Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriais (IAPI) fechou um convênio com o Hospital Rassi, de Goiânia, para dar assistência médica aos operários. Eu trabalhava lá. Eles me escolheram e me mudei para Brasília’’, lembrou.

  No final de 1956, trabalhavam no canteiro de obras apenas 120 operários, os candangos que aceitaram o desafio de Juscelino de erguer uma cidade no meio do cerrado. O serviço médico era ininterrupto já que esse número duplicou nos dois meses seguintes.

  Os casos mais leves eram tratados aqui mesmo. Os mais graves, encaminhados ao Hospital Rassi, para onde os pacientes eram levados num avião Cessna, reservado para esse fim. ‘‘Nós só tínhamos mesmo material para atendimentos clínicos e para pequenas cirurgias. Era tudo muito precário’’, recorda-se.

  Aposentado desde 1994, Edson Porto dedica-se hoje à música, à pintura à sinuca e à marcenaria. Como violonista, participou da primeira orquestra de Brasília, inaugurada em 1970. Foi ainda o fundador da Federação Brasiliense de Sinuca, esporte que ainda pratica com excelência.

UM CIRURGIÃO NO CERRADO

Álbum de família
Médico Edson Porto (à esquerda): a primeira ambulância

  Vinte e sete dias depois da chegada do doutor Edson Porto ao canteiro de obras da Novacap, um jovem idealista, especializado em cirurgia geral pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, desembarcou na pequenina vila onde hoje é o Núcleo Bandeirante. O médico Isaac Barreto Ribeiro chegou exatamente no dia 31 de dezembro de 1956 e poucas viradas de ano ficaram tão bem guardadas na sua memória quanto essa. ‘‘Réveillon não teve. Não havia nada aqui além de mato, poeira e umas poucas casas de madeira’’, lembrou.

  Naquele dia, o doutor Isaac, hoje com 75 anos, ainda não trazia muita coisa na bagagem. ‘‘Primeiro eu vim só para ver o lugar, mas logo depois eu trouxe todo o centro cirúrgico que eu tinha no meu consultório em Ceres (GO)’’, recordou o pioneiro.

  Com esse espírito desbravador, o médico Isaac fundou o primeiro centro cirúrgico na ainda não inaugurada capital da República. ‘‘Ocupei uma das casas de madeira da esquina da Avenida Central (na Cidade Livre) e instalei minha clínica ali. Tinha raio-x, mesa de cirurgia e até um pequeno centro de pesquisa.’’

TÉCNICA DE GUERRA

  No dia 6 de julho de 1957 foi inaugurado o primeiro hospital da cidade, o Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), sob a direção de Edson Porto. Antes da abertura oficial, entretanto, o doutor Isaac foi obrigado a fazer uma cirurgia de emergência que marcou sua vida.

  Naquele ano, as chuvas haviam aberto uma grande cratera na Avenida Central, o que acabou provocando um acidente com um português. O jipe que ele dirigia perdeu o freio e, desesperado, ele pulou do carro antes que o veículo caísse na cratera. Quando ele caiu, um caminhão, que vinha logo atrás, passou por cima de uma de suas pernas, dilacerando-a.

  Sem alternativa a não ser operar o paciente, Isaac Barreto levou o homem para o HJKO e junto com Edson Porto, que atuou como anestesista, e do então estudante de medicina Cláudio Costa, salvou a vida do português.

  ‘‘A única opção foi amputar a perna. Foi como uma cirurgia de guerra. Ou fazíamos isso ou o paciente morreria’’, justificou. Foi assim a primeira grande cirurgia realizada no cerrado.

    Nascido em Barra do Rio Grande, no interior da Bahia, o doutor Isaac é casado e tem quatro filhos, um deles o ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro. Formado também em direito, Isaac dedica-se hoje ao trabalho de perícia médica e a defender casos na área criminal. Ele foi o primeiro presidente da Associação Médica de Brasília, inaugurada em 1959, na época uma regional da Associação Médica de Goiás.

LEMBRANÇAS DO PISTOLEIRO

  Numa cidade que completará 40 anos, não é difícil encontrar pioneiros nos vários setores. Na medicina, em particular. O médico Ítalo Nardele e a enfermeira Cacilda Bertoni também fazem parte de uma geração de profissionais contemporâneos de Edson Porto e Isaac Barreto Ribeiro.

  Passadas quatro décadas, Cacilda não se esquece de um inusitado paciente que apareceu no Hospital Distrital (hoje Hospital de Base).‘‘Foi um sujeito que tivemos que operar para tirar uma bala do braço’’, lembrou Cacilda. ‘‘Ele foi atingido depois que tentou invadir o Palácio da Alvorada para matar o presidente Juscelino. A história que ouvi dizer foi que ele entrou com jipe e tudo e os guardas abriram fogo’’, afirmou.

  A enfermeira chegou a Brasília em 1957 e lembra bem das dificuldades que enfrentou. ‘‘Cansei de fazer partos nas casas da Cidade Livre com luz de vela e ratos passando pelos meus pés.’’

  Os partos na capital também fizeram parte da rotina médica de Ítalo Nardele, um dos primeiros obstetras da cidade, que chegou a Brasília no ano da inauguração. Impossível dizer quantas crianças passaram pela mãos do médico nas décadas de Hospital Distrital. ‘‘O que mais me deixa feliz mesmo foi ter trabalhado para pôr muita gente na rua durante todos esses anos’’, orgulha-se ele, aos 82 anos e com Mal de Parkinson.

  Lendas entre os médicos da cidade, a maioria dos pioneiros da medicina está aposentada. As palavras de Isaac Barreto — um pioneiro idealista que se emociona ao falar de Brasília e de Juscelino ‘‘uma pessoa incrível de quem é impossível se esquecer’’ — resumem o espírito de todos que trabalharam para erguer Brasília. ‘‘Tenho uma glória na vida, que vou levar para minha sepultura: o orgulho de ter ajudado a construir essa cidade.’’


Vida de pioneiro
A mulher dos dois mil partos

Andrea Catta Preta
Especial para o Correio
Nehil Hamilton

Filha de pais conservadores, ela sonhava em ser médica, mas não teve permissão para estudar. Mineira de Ibiá, dona Luzia Farias de Andrade (foto) aprendeu a ser parteira com a sogra e passou a exercer o ofício na sua cidade. Em julho de 1961, veio para Brasília e aqui, calcula, fez pelo menos 2 mil partos.

‘‘Eu atendia a grávida na casa dela e acompanhava o parto. Não havia hospitais, mas tinha muita, muita gente’’, conta. Um ano depois, Luzia foi chamada para um curso de especialização no Hospital Regional do Gama
Tudo no Gama era muito precário, mas isso não fez dona Luzia gostar menos da capital.

‘‘Pra mim era uma beleza! Sem luz, sem água e quase sem rua’’. Jovem na época, ela tinha força de vontade e a profissão a reconfortava mais do que nunca. ‘‘Tinha saúde, coragem e queria enfrentar a vida. E ver os meu bebês crescerem’’. Não apenas os seus nove filhos, mas todos os nenéns que ajudou a trazer ao mundo.

Apesar das dificuldades, tanto Brasília como o ofício de parteira eram a coisa certa para dona Luzia. ‘‘Nasci para isso. Para tirar as mães do sufoco e para morar na cidade mais linda do mundo!’’. Com o tempo, a capital foi crescendo e as condições de trabalho melhoraram, mas dona Luzia não deixou de fazer partos em domicílio. ‘‘Nascido em casa é muito melhor. Não tem contaminação e a criança é mais sadia’’.

Hoje, dona Luzia dirige, dança, faz ginástica e visita netos e bisnetos. Com a família toda por perto, a única falta que sente é a de exercer a profissão.‘‘Parei de praticar porque estava cansada, mas se pudesse, continuaria fazendo os partos de Brasília.’’ Prova disso é sua emoção ao visitar o berçário do Hospital do Gama, dona Luzia

 


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