Em 1957, três anos antes da inauguração
da nova capital, um surto de diarréia se abateu sobre os operários
da Novacap. Preocupado e notando que os comprimidos de enteroviofórmio
(remédio usado na época contra a doença) estavam
demorando para chegar do Hospital Rassi, de Goiânia, o
médico Edson Porto tratou de pegar um jipe e ir comprar o comprimido
em Luziânia.
Na farmácia da cidade, soube que alguém havia
passado por lá e levado todo o estoque do medicamento. Quando
a remessa de Goiânia finalmente chegou, o número de doentes
já era bem menor. Estranhando a cura repentina, o doutor Edson
resolveu investigar o que acontecera. E descobriu uma história
fantástica.
Assim que os operários começaram a se queixar
da doença, o cozinheiro do SAPS (Serviço de Alimentação
da Previdência Social), um italiano chamado Vítor, cujo
sobrenome o doutor Edson não se recorda, o procurou. Ele queria
saber como se tratava a tal doença.
Com a resposta decorada, Vítor viajou a Luziânia
e comprou o medicamento, e o jogou dentro das panelas em que preparava
o feijão dos operários. Estava resolvido o problema. Ele
foi o primeiro sanitarista de Brasília, brinca Edson
Porto, com um largo sorriso. A história é apenas uma das
lembranças que ele carrega na prodigiosa memória de pioneiro.
Aos 68 anos, casado, pai de cinco filhos, avô de
sete netos, o médico Edson Porto é uma das lendas de Brasília.
Nascido na cidade mineira de Araguari, formado em medicina no Rio de
Janeiro, ele chegou em 4 de dezembro de 1956 para fazer parte da história
da cidade.
Nesse dia, em meio à aspereza do cerrado e contaminado
pela poeira vermelha que se tornaria uma das marcas registradas da nova
capital, o pediatra Edson Porto abraçou definitivamente o desafio
de cuidar dos operários. Atendendo em uma pequena casinha de
madeira, instalada próxima ao galpão do acampamento da
Novacap, ele inaugurou a medicina na capital.
Assim que as obras começaram, o então
Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriais (IAPI) fechou
um convênio com o Hospital Rassi, de Goiânia, para dar assistência
médica aos operários. Eu trabalhava lá. Eles me
escolheram e me mudei para Brasília, lembrou.
No final de 1956, trabalhavam no canteiro de obras apenas
120 operários, os candangos que aceitaram o desafio de Juscelino
de erguer uma cidade no meio do cerrado. O serviço médico
era ininterrupto já que esse número duplicou nos dois
meses seguintes.
Os casos mais leves eram tratados aqui mesmo. Os mais graves,
encaminhados ao Hospital Rassi, para onde os pacientes eram levados
num avião Cessna, reservado para esse fim. Nós
só tínhamos mesmo material para atendimentos clínicos
e para pequenas cirurgias. Era tudo muito precário,
recorda-se.
Aposentado desde 1994, Edson Porto dedica-se hoje à
música, à pintura à sinuca e à marcenaria.
Como violonista, participou da primeira orquestra de Brasília,
inaugurada em 1970. Foi ainda o fundador da Federação
Brasiliense de Sinuca, esporte que ainda pratica com excelência.
UM CIRURGIÃO NO CERRADO
Vinte e sete dias depois da chegada do doutor Edson Porto
ao canteiro de obras da Novacap, um jovem idealista, especializado em
cirurgia geral pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, desembarcou
na pequenina vila onde hoje é o Núcleo Bandeirante. O
médico Isaac Barreto Ribeiro chegou exatamente no dia 31 de dezembro
de 1956 e poucas viradas de ano ficaram tão bem guardadas na
sua memória quanto essa. Réveillon não
teve. Não havia nada aqui além de mato, poeira e umas
poucas casas de madeira, lembrou.
Naquele dia, o doutor Isaac, hoje com 75 anos, ainda não
trazia muita coisa na bagagem. Primeiro eu vim só
para ver o lugar, mas logo depois eu trouxe todo o centro cirúrgico
que eu tinha no meu consultório em Ceres (GO), recordou
o pioneiro.
Com esse espírito desbravador, o médico Isaac
fundou o primeiro centro cirúrgico na ainda não inaugurada
capital da República. Ocupei uma das casas de madeira
da esquina da Avenida Central (na Cidade Livre) e instalei minha clínica
ali. Tinha raio-x, mesa de cirurgia e até um pequeno centro de
pesquisa.
TÉCNICA DE GUERRA
No dia 6 de julho de 1957 foi inaugurado o primeiro hospital
da cidade, o Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), sob a direção
de Edson Porto. Antes da abertura oficial, entretanto, o doutor Isaac
foi obrigado a fazer uma cirurgia de emergência que marcou sua
vida.
Naquele ano, as chuvas haviam aberto uma grande cratera
na Avenida Central, o que acabou provocando um acidente com um português.
O jipe que ele dirigia perdeu o freio e, desesperado, ele pulou do carro
antes que o veículo caísse na cratera. Quando ele caiu,
um caminhão, que vinha logo atrás, passou por cima de
uma de suas pernas, dilacerando-a.
Sem alternativa a não ser operar o paciente, Isaac
Barreto levou o homem para o HJKO e junto com Edson Porto, que atuou
como anestesista, e do então estudante de medicina Cláudio
Costa, salvou a vida do português.
A única opção foi amputar
a perna. Foi como uma cirurgia de guerra. Ou fazíamos isso ou
o paciente morreria, justificou. Foi assim a primeira grande
cirurgia realizada no cerrado.
Nascido em Barra do Rio Grande, no interior
da Bahia, o doutor Isaac é casado e tem quatro filhos, um deles
o ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro. Formado também
em direito, Isaac dedica-se hoje ao trabalho de perícia médica
e a defender casos na área criminal. Ele foi o primeiro presidente
da Associação Médica de Brasília, inaugurada
em 1959, na época uma regional da Associação Médica
de Goiás.
LEMBRANÇAS DO PISTOLEIRO
Numa cidade que completará 40 anos, não é
difícil encontrar pioneiros nos vários setores. Na medicina,
em particular. O médico Ítalo Nardele e a enfermeira Cacilda
Bertoni também fazem parte de uma geração de profissionais
contemporâneos de Edson Porto e Isaac Barreto Ribeiro.
Passadas quatro décadas, Cacilda não se esquece
de um inusitado paciente que apareceu no Hospital Distrital (hoje Hospital
de Base).Foi um sujeito que tivemos que operar para tirar
uma bala do braço, lembrou Cacilda. Ele
foi atingido depois que tentou invadir o Palácio da Alvorada
para matar o presidente Juscelino. A história que ouvi dizer
foi que ele entrou com jipe e tudo e os guardas abriram fogo,
afirmou.
A enfermeira chegou a Brasília em 1957 e lembra
bem das dificuldades que enfrentou. Cansei de fazer partos
nas casas da Cidade Livre com luz de vela e ratos passando pelos meus
pés.
Os partos na capital também fizeram parte da rotina
médica de Ítalo Nardele, um dos primeiros obstetras da
cidade, que chegou a Brasília no ano da inauguração.
Impossível dizer quantas crianças passaram pela mãos
do médico nas décadas de Hospital Distrital. O
que mais me deixa feliz mesmo foi ter trabalhado para pôr muita
gente na rua durante todos esses anos, orgulha-se ele, aos
82 anos e com Mal de Parkinson.
Lendas entre os médicos da cidade, a maioria dos
pioneiros da medicina está aposentada. As palavras de Isaac Barreto
um pioneiro idealista que se emociona ao falar de Brasília
e de Juscelino uma pessoa incrível de quem é
impossível se esquecer resumem o espírito
de todos que trabalharam para erguer Brasília. Tenho
uma glória na vida, que vou levar para minha sepultura: o orgulho
de ter ajudado a construir essa cidade.